Brasília

– Ao interferir diretamente nas indicações dos embaixadores de Cuba, Venezuela e China na semana passada, feitas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o PT deu sinais claros de como deverá ser conduzida a política externa do novo governo. Por razões históricas, o partido quer avançar de forma mais intensa na aproximação com cubanos e chineses. No caso da Venezuela, ficou evidente a preocupação do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva em escolher uma pessoa de sua confiança, tendo em vista o quadro de instabilidade política que tornou vulnerável a permanência do presidente Hugo Chávez.

A avaliação de especialistas e integrantes do atual governo é de que o interesse de Lula na América Latina tem como pano de fundo a necessidade de o Brasil manter sua posição de liderança na região, especialmente no que diz respeito à preservação dos princípios democráticos. Mas o estreitamento das relações com os vizinhos é apenas uma vertente prioritária com a qual o PT pretende trabalhar.

No Itamaraty, o fato de o presidente republicano George W. Bush ter conseguido maioria no Congresso significa que a hipótese de uma guerra contra o Iraque está cada vez mais próxima. Um conflito no Oriente Médio afetaria negativamente a economia brasileira, começando pelo aumento da cotação do petróleo no mercado internacional, com reflexos nos preços internos. A alta da inflação é tudo o que Lula não quer.

Além disso, a avaliação geral é que o protecionismo americano tende a aumentar com a vitória dos republicanos. Ao longo dos dois últimos anos, cresceram as barreiras às exportações brasileiras, principalmente do aço e do suco de laranja, e foram ampliados os subsídios para produtos agrícolas, como soja e algodão.

A partir do ano que vem, ganham força as negociações para a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Lula está decidido a continuar conversando e sua posição se assemelha à do governo atual: há tempo para dizer não à Alca, até o final de 2004, se o acordo não atender aos interesses do Brasil.