A gestão do coronel Álvaro Camilo no Comando-Geral da Polícia Militar (2009-2012) registrou alta de 211% dos gastos efetuados pelo Departamento de Suporte Administrativo (DSA), órgão no centro das fraudes investigadas na Operação Imperador, a chamada Lava Jato da PM. O montante passou de R$ 11 milhões para R$ 34,2 milhões. Já no ano em que Camilo deixou a corporação, os gastos do setor caíram para R$ 6,2 milhões, média que se mantém até hoje.

O ex-comandante-geral é hoje deputado estadual pelo PSD, partido presidido pelo ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab. Em 2008, antes de o coronel assumir o comando da PM paulista, o DSA havia consumido R$ 11 milhões. Os gastos do departamento na gestão de Camilo seriam atípicos. Segundo a Corregedoria da PM, as fraudes e os desvios no DSA podem chegar a R$ 200 milhões.

Durante parte da gestão de Camilo, o DSA era chefiado pelo tenente-coronel José Afonso Adriano Filho, que está preso e negocia delação com o Ministério Público Estadual. Na tratativa, ele tenta envolver Camilo como um dos beneficiários dos desvios, sustentando que era impossível ter agido sozinho. “Cumpri ordens do Comando-Geral”, chegou a dizer em depoimento. O deputado nega.

As informações sobre a elevação dos gastos da DSA foram extraídas do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafem) do governo estadual. Responsável pela manutenção do quartel do Comando-Geral e outras unidades vizinhas, no centro da cidade, o DSA ganhou outras atribuições no período, passando a fazer licitações para peças de viaturas e reformas de outras unidades da corporação. Em 2012, essas responsabilidades foram novamente alteradas para restringir sua atuação ao quartel do comando.

“Os gastos do DSA geralmente são contas de água e luz, limpeza, manutenção dos prédios do comando e os anexos vizinhos”, explica o coronel Benedito Roberto Meira, que comandou a PM de novembro de 2012 até janeiro de 2015. “A diferença foi que retiramos a atribuição de a DSA mexer com verba para reparo de viaturas, que representava a maior parte dos gastos, direcionando para o órgão que acreditávamos ser o mais cabível, o centro de manutenção de viaturas”, afirma.

Meira diz que, quando assumiu o comando, encontrou em andamento a sindicância aberta por Camilo sobre os desvios do DSA, mas enxergou a necessidade de aprofundá-la em razão da “infinidade de irregularidades” apontadas na apuração inicial. “Era necessário que outras pessoas fossem ouvidas e o coronel (Levy) Félix conduziu essa investigação.” Félix, então tenente-coronel, seria promovido a coronel e designado na sequência para ser o corregedor da PM. Foi ele quem prendeu o tenente-coronel Adriano em março deste ano.

A reportagem questionou Camilo sobre as mudanças de atribuições da DSA e a elevação dos gastos, agora postos sob suspeita. A Corregedoria acredita que boa parte dos serviços licitados com empresas de fachada nunca foram devidamente efetuados. Camilo não responde a essas perguntas. Em nota, reforçou que foi ele o responsável por abrir “imediatamente”, em 2011, apuração do caso Adriano.

“O coronel Camilo, como comandante-geral, afastou o ex-PM de suas funções, o transferiu de unidade e a apuração iniciada por Camilo culminou na perda de posto, patente e salário do ex-oficial, que age agora por pura vingança”. Em agosto, o Tribunal de Justiça Militar determinou a perda da patente de Adriano, que vai recorrer da decisão. Camilo destaca que Adriano tenta “criar ilações para obter vantagens no processo”.