A Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) chega ao seu 15.º ano no próximo dia 26, na Avenida Paulista, em um momento de avaliação. Avaliar o que já conquistou, o que está construindo e o que ainda pretende alcançar. Em meio a questionamentos, uma certeza: o evento busca resgatar seu viés político. Para isso, conta com a principal reivindicação deste ano: a aprovação no Congresso, em seu texto original, do Projeto de Lei Complementar (PLC) 122, de 2006, que visa a criminalizar a homofobia.

No entanto, alguns pontos do PLC 122 não são claros. A maior polêmica gira em torno da liberdade de expressão dos religiosos, que alegam que qualquer manifestação contra a homossexualidade pode ser caracterizada como discriminação ou preconceito. Em razão disso, senadores já trabalham com um novo texto, que busca garantir a liberdade religiosa, assegurada pela Constituição.

Em meio a essa polêmica está o tema deste ano da Parada do Orgulho LGBT, que se apropriou de um mandamento bíblico para pedir o fim da violência contra os homossexuais: “Amai-vos uns aos outros: basta de homofobia”. Em carta, a Associação da Parada do Orgulho GLBT (APOGLBT) de São Paulo, responsável por organizar o evento, se justificou: “Respeitosamente, nos apropriamos da frase ‘Amai-vos uns aos outros’ para pedir fim à guerra travada entre religião e direitos humanos, financiada pelas brasileiras e brasileiros que dão voz aos fundamentalistas e extremistas que ocupam as cadeiras do Parlamento e espaço nas mídias.”

Como era de se esperar, a polêmica foi criada. Em artigo publicado na edição do último sábado do jornal O Estado de S. Paulo, o cardeal-arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, apesar de se não referir de maneira explícita, criticou a escolha do tema. “‘Amai-vos uns aos outros’ é apenas uma parte do mandamento novo de Jesus; sem a outra parte – ‘como eu vos amei’ -, as belas palavras de Jesus ficam genéricas, ambíguas, expostas à instrumentalização subjetiva e ao deboche desrespeitoso.”

Questionado se não achava que a escolha do tema, em vez de debater a questão da homossexualidade com seriedade, só acirraria os ânimos dos dois lados e jogaria a questão como se fosse o bem contra o mal, Ideraldo Beltrame, presidente da APOGLBT, disse que sabia que o tema seria provocativo. Porém, segundo ele, a escolha valia a pena. “Precisamos tirar a frase do campo religioso e passar para um campo maior, de toda a sociedade. É preciso um questionamento da frase, já que a própria Igreja não cumpre o que prega, o amor de uns pelos outros.”

Beltrame reconheceu que nos últimos anos a força política dos militantes perdeu espaço em meio à Parada do Orgulho LGBT. Pior, a festa tem “engolido” a associação que ele comanda. Por um lado, o evento na Avenida Paulista, que atualmente tem um público estimado de três milhões de pessoas, é o momento de maior exposição da APOGLBT; por outro, como virou mais festa do que luta por direitos, a manifestação acaba por esconder boa parte do trabalho realizado durante o ano pela associação. “É um movimento autofágico”, resumiu Beltrame.

Apesar das recentes conquistas, como o reconhecimento por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da união civil entre pessoas do mesmo sexo, Beltrame disse que o ideal seria a Parada do Orgulho LGBT repetir a primeira manifestação, de 1997. “Naquele ano, a Parada foi feita para os militantes, com palavras de ordem e com o objetivo de deixar um recado, uma mensagem.” Para ele, as lembranças das recentes manifestações são apenas fotos de drag queens nos jornais. A primeira parada contou com a participação de cerca de 2 mil pessoas.