No dia que a ministra da Secretaria da Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, se viu obrigada a pedir demissão por gastos irregulares com cartão de crédito corporativo e falta de transparência, o Palácio do Planalto decidiu abrir investigação para descobrir como e por que as despesas da família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em supermercados, açougues lojas de bebidas, entre outros, tanto no Palácio da Alvorada e da Granja do Torto, foram colocados no Portal da Transparência da Controladoria Geral da União (CGU), para ampla consulta por qualquer pessoa. A alegação da Presidência da República é de que estes dados são de "segurança do Estado" e que podem ser usados contra a integridade da vida do chefe de governo e de sua família.
Além de investigar para descobrir o que houve, e entender que é preciso afastar desta função o funcionário que fazia as despesas com cartão de crédito, não para puni-lo, mas por ter "se tornado um alvo", o governo informou ainda que vai fazer cumprir uma regra da Casa Civil e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) de impedir que qualquer gasto deste volte a ser divulgado porque eles são relativos à segurança do presidente da República. A CGU, por sua vez, informa que só divulgou os dados porque eles estavam liberados e que só bloqueia dados que são solicitados e, neste caso, não houve solicitação. "Quem faz classificação destes dados, do que é ou não sigiloso, são os órgãos que nos enviam estas informações", informou a CGU.
A investigação sobre como estes dados foram parar no Portal da Transparência será feita pela Secretaria de Administração da Presidência da República. Embora o Brasil não tenha tradição de práticas de terroristas ou atentados a chefes de Estado, a alegação do Planalto é que com estes e outros dados disponíveis, facilmente pode-se montar um quebra cabeças e descobrir como funciona a estrutura dos palácios presidenciais, quantas pessoas ali trabalham, jantares ou almoços que serão realizados. Isso permitiria, por exemplo, que se envenenasse a carne que estava sendo comprada para ser servida ao presidente da República e sua família. O Planalto explica ainda que as compras são feitas com cartão de crédito e, portanto, sem licitação porque não se pode expor este tipo de gasto da família presidencial, por questão de segurança.
"Isso (divulgação destes dados) não é possível. Acontecer isto é um caso único no mundo. Em todos os locais do mundo se preserva segurança e a intimidade do seu chefe de Estado. Isso não pode ser divulgado. Mas, aconteceu, aconteceu. Agora é evitar que aconteça de novo", declarou o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Jorge Armando Félix, ao Estado responsável pela segurança de Lula e sua família, mostrando-se "surpreso" com a divulgação das despesas presidenciais. "Todos fomos surpreendidos. Tomamos cuidado com o lixo, com destruição de papéis, porque, às vezes, juntando um dado aqui, outro ali, se consegue informações preciosas de como funciona um palácio presidencial, por exemplo", justificou o ministro. "Temos de preservar a intimidade e a segurança do presidente como um todo e isso é feito assim em todos os países", declarou ele, acrescentando que este episódio não é caso de investigação pela Agência Brasileira de Inteligência, Abin. "É um problema meramente administrativo. Mas precisamos ver o que aconteceu porque , por ali, se pode saber quantas pessoas guardam o presidente e isso não convém".
Assessores do presidente relataram, por exemplo, que a simples divulgação do nome do funcionário José Henrique de Souza, que aparece no organograma do governo como assessor especial de atendimento ao gabinete pessoal do presidente da República, e que, na verdade, é quem faz as compras, o expõe e o torna uma "presa fácil" para alguém mal intencionado. Com isso, o funcionário torna-se um alvo e não poderá mais continuar a desempenhar este tipo de função.