O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu nesta terça-feira, 4, a regulação das drogas como forma de evitar mortes de inocentes em decorrência da guerra ao tráfico. “A guerra ao tráfico está afetando todo mundo. É claro que não vai deixar o bandido solto, tem que prender. Mas não pode, na violência, matar o inocente. O Brasil tem que estar mais alerta a isso. Tem que ter outro paradigma”, disse, ao comentar as mortes de duas adolescentes em Acari, na zona norte do Rio, nos últimos dias.

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Ele ressaltou que “nenhum país nunca está preparado” para o debate sobre a descriminalização de drogas, mas todos precisam encarar o problema de forma mais “aberta e franca”. “As drogas fazem mal, todas, mas não adianta só reprimir, e sim educar. Nenhum país nunca está preparado. Tem que fazer. Tem que ensinar. Tem que criar o estado de espírito que leve a isso”.

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FHC deu as declarações ao participar do ciclo de conferências “Segurança pública em debate”, na Academia Brasileira de Letras, da qual é membro desde 2013. O tema foi “As políticas sobre drogas e a crise carcerária no Brasil”. Ele preside a Comissão Global de Política sobre Drogas, instituída pelas Nações Unidas e integrada também pelos ex-presidentes do México Ernesto Zedillo e da Colômbia César Gaviria, além do ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan, entre outras autoridades.

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Em sua fala na ABL, em um auditório cheio de acadêmicos e público em geral, ele foi porta-voz da posição da Comissão Global sobre o tema. “Em vez de se falar de proibição ou legalização, vamos falar em regulação. Pessoalmente, eu sou careta, tenho horror a cigarro, maconha, mas a gente tem que entender os processos. O Brasil é um dos países com menor índice de consumo de tabaco no mundo, e isso porque houve proibição, campanha. Houve uma rejeição e regulação social.”

Além da repercussão na segurança pública, ele mencionou a “penetração dos cartéis de drogas” no financiamento de políticos. “Daqui a pouco não tem democracia possível. Pode haver tal deturpação da vontade popular que haja distorção muito grande.” Ele acredita na necessidade de se desmistificar o debate sobre entorpecentes. “O medo de usar a palavra legalização é o significado de ‘liberou geral’. Não adianta tapar o sol com a peneira. Eu me exponho, não tenho nada a perder mais. Nós temos que inserir grãos de racionalidade nessa questão da droga. Essa guerra não deu certo.”