Com a taça de bicampeã do carnaval de São Paulo disposta no pé do palco do galpão da escola, em um espaço fechado sob o Viaduto Antônio Abdo, no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, uma multidão saudou a vizinhança da escola, apontada como razão para a Acadêmicos do Tatuapé ter obtido tanto sucesso nos últimos anos. Era pouco antes das 19h desta terça-feira, 13, quando a direção retornou do Anhembi com as estátuas douradas que garantiam o título de melhor da cidade.

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“Tatuapé” e “comunidade” eram gritados no palco e no público, em êxtase enquanto o samba-enredo da agremiação tocava. O barracão, sem janelas e escuro, estava lotado e quente, apesar da noite fria (19°C).

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Do lado de fora, notava-se um trânsito caótico nas vias do entorno, após interdição da Rua Melo Peixoto, e com a Rua Honório Maia travada. O próprio viaduto onde fica a escola estava com uma faixa bloqueada, por causa dos curiosos que ficaram parados na altura do portão de entrada do barracão.

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Dentro, antes da festa começar de fato, diretores se abraçavam. Diziam – e diziam de novo – que o título era da “comunidade”. Gilberto Silva, conhecido como Giba, diretor de harmonia da escola, destacava que “o pessoal não fica com a fantasia”. Segundo ele, a pessoa “fica sócia da escola, paga uma taxa por mês, para poder ajudar. Só quem gosta está aqui.”

O vice-presidente, e diretor de carnaval, Erivelton Coelho, também fazia referência ao carnaval sem fantasias. “Nós reaproveitamos tudo”, contava.

“Se a escola tem um vice-campeonato e dois títulos seguidos, é claro que é por causa da comunidade. Se a pessoa vem um ano, desfila, devolve a fantasia, continua vindo, se importa, vai criando um espírito, uma coisa de união. Isso que é dizer que a vitória é da comunidade”, disse Coelho. “O que foi acontecendo aqui foi uma seleção. As pessoas que queriam ganhar, que queriam fazer isso acontecer, foram ficando. Quem vinha só pela farra, foi saindo. E fomos trazendo gente boa.”

Uma dessas “contratações” é o carnavalesco Wagner Santos. Até o ano passado, ele ocupava esse posto na Acadêmicos do Tucuruvi. Mudou este ano para falar sobre seu estado natal, o Maranhão, e para virar um dos grandes defensores da lógica de economizar no material das fantasias para garantir o retorno do integrante da escola e, assim, a devoção ao carnaval.

Identificação

Integrante da escola há dois anos, a auxiliar de vendas Miriam Zago, de 32 anos, diz que participar da agremiação é “uma coisa que te identifica com seu bairro”. Mas, segundo ela, iria querer participar da Tatuapé mesmo se não morasse na zona leste.

“Eles são sérios aqui. Ouvem a gente, querem ganhar. Estar junto de gente assim faz esquecer os problemas de trabalho, de outras coisas”, conta Miriam.

Três perguntas para Wagner Santos, carnavalesco da Tatuapé:

1. Por que a escola usa fantasias com materiais reciclados?

Sem vender fantasias, reaproveitando o material de outros anos, conseguimos que a comunidade participe mais da escola. E é a comunidade a maior força da Tatuapé. Guardamos tudo o que usamos. Se não reaproveitamos em um ano, reaproveitamos em outro.

2. Como isso é visto no mundo do samba?

Cheguei a ler comentários com xingamentos na internet. Mas, assim, exigimos menos do meio ambiente.

3. Mas há também a questão econômica?

Claro que há. E vamos lembrar que o carnaval é feito com dinheiro público.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.