A proposta aprovada na terça-feira, 14, no Senado impõe punição para um universo maior de adolescentes em comparação com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tramita na Câmara dos Deputados. Os senadores aprovaram aumento do tempo de internação para todos os jovens, entre 12 e 17 anos, envolvidos com crimes hediondos e homicídios simples, enquanto a Câmara quer punir como adultos apenas os adolescentes de 16 e 17 anos flagrados em atos da mesma natureza, mais casos de lesões corporais graves.

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A lei que avançou no Senado corresponde ao perfil de 2,8% dos adolescentes condenados na Comarca de São Paulo. A PEC da Câmara atingiria 2% dos menores.

A proporção foi feita com base em levantamento do Ministério Público Estadual (MPE) em 4.980 processos de execução de medida socioeducativa na capital paulista. A análise mostrou que, dentre os casos hediondos cometidos por todo os adolescentes, o mais comum, com 36% das ocorrências, foi o latrocínio (roubo seguido de morte). Houve ainda registro de casos estupro de vulnerável e homicídio qualificado.

Por meio da análise dos processos, o MPE conseguiu constatar ainda que o período médio de internação não ultrapassa 1 ano, mesmo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) permitindo que se restrinja a liberdade do jovem por até 3 anos. Nos casos estudados em São Paulo, 87,5% não ultrapassaram 12 meses no cumprimento da medida de internação.

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O tempo em que o adolescente fica internado é determinado em cada caso pelo juízo da Infância competente, levando-se em consideração a gravidade do ato infracional e eventual reincidência do adolescente.

Para o promotor da Infância Tiago de Toledo Rodrigues, a proposta que está no Senado não surtirá os efeitos esperados. “Vejo como uma proposta de pouquíssima eficácia e que dificilmente trará as soluções que a população precisa”, disse.

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Rodrigues pede pelo estabelecimento de um tempo mínimo necessário antes da reavaliação da internação do adolescente, que hoje não existe. As medidas impostas aos jovens podem ser revisadas a qualquer momento, inclusive para conceder liberdade, independentemente do ato praticado. “O tempo máximo de internação dificilmente é aproveitado atualmente. Então, o prolongamento desse prazo surtirá pouquíssimo efeito.”

O promotor, que também é contrário à redução da maioridade, pede o cumprimento do que já está previsto no ECA. “É necessário que se cumpra o que foi planejado para, a partir disso, se analisar os resultados. Não sou contra quaisquer alterações, mas antes temos que implantar o que está previsto em lei e, depois, partir para essa discussão”, acrescentou.

Punição

Para o coordenador do programa de Justiça da ONG Conectas Direitos Humanos, Rafael Custódio, criou-se uma falsa ideia de que o prolongamento do tempo de internação seria menos grave do que a redução da maioridade penal. “Nas últimas semanas, até setores progressistas embarcaram nessa ideia, o que a gente acha bastante discutível. É uma punição desproporcional que pode até fazer com que um adolescente passe mais tempo internado do que um adulto preso pelo mesmo crime”, disse.

Ele reforçou a crítica à aprovação e comentou o fato de a discussão ocorrer em meio à comemoração dos 25 anos do ECA, celebrado nesta semana. “A Câmara deu uma resposta e o Senado deu outra para o que acreditam ser uma forma de combate à criminalidade, quando, na verdade, a juventude brasileira é muito mais vítima do que autora dessa violência. O endurecimento das penas dos jovens é uma medida demagógica e que representa retrocesso”, disse Custódio.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.