Brasília – Nos últimos cinco dias, ministros e assessores do governo se esconderam diante da repercussão negativa da decisão de cancelar o visto do repórter Larry Rohter, do New York Times, revista na sexta-feira. A posição do governo foi apresentada ao público como uma reação indignada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O que os integrantes do governo que participaram das reuniões do início da semana não dizem é que a maioria considerou a reportagem uma agressão deliberada e estimulou Lula a adotar uma posição forte.

Na segunda-feira à tarde, quando a coordenação política reuniu-se com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, Lula não era o único indignado. Diversos ministros acreditavam que o governo precisava reagir com força para provar que este tipo de postura não ficaria impune, mesmo que isso causasse desgaste e dúvidas quanto ao compromisso do País com a liberdade de imprensa.

“A conclusão unânime foi de que a reportagem não era gratuita. Que fora feita premeditada e de má-fé, com claro objetivo calunioso. Era preciso uma resposta dura, para mostrar que o governo tinha força”, diz um dos ministros presentes.

Diante da avaliação, o governo desistiu de responder à reportagem com um processo na Justiça dos EUA. O presidente e os ministros concordaram que cancelar o visto era a melhor opção. A reportagem foi tratada como uma arma de guerra e foi lembrado que Rohter escrevera um texto incluindo o Brasil no Eixo do Mal às vésperas da viagem de Lula ao Oriente Médio.

“Naquele dia, o presidente encerrou a reunião dizendo: “Vamos aguardar a visita do nosso embaixador ao jornal”, relata um dos ministros presentes. A decisão de cancelar o visto só não foi tomada porque havia a expectativa de que o embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur, conseguiria a retratação. Na Suíça, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, participava do esforço para evitar uma medida drástica. “A reação da mídia e da sociedade estava a favor de Lula e com a retratação o caso estaria encerrado”, diz um assessor do presidente.

Visto

No fim da tarde de terça-feira, Amorim fez um relato desanimador sobre a reunião de Abdenur com a direção do jornal. Em seguida, o ministro interino da Justiça, Paulo Teles Ferreira Barreto, e o advogado-geral da União, Álvaro Costa, explicaram os aspectos técnicos do cancelamento do visto. Barreto citou como inconveniente o fato de o governo usar uma lei que tinha origem na ditadura, mas foi contestado pelo secretário de Comunicação, Luiz Gushiken: “Não posso aceitar este argumento. Há leis sobre cancelamento de vistos em todos os países e em todos os tempos”, disse.

O anúncio foi feito e a repercussão negativa foi imediata. A defesa do governo ficou entregue aos porta-vozes e líderes aliados no Congresso. Pressionado, Gushiken comentou com assessores: “O presidente quer, não tem outro caminho!”

Enquanto isso, Bastos tentava uma retratação. A esperança do governo passou a se concentrar em Rohter. Casado com uma brasileira e com filhos nascidos aqui, acreditava-se que a negociação com ele seria mais fácil do que com a direção do jornal. Após dois dias de negociação, Rohter fez uma carta lamentando a polêmica e o constrangimento gerados pela reportagem. O governo tratou a carta como uma retratação e anunciou que recuaria, mas o New York Times respondeu que o conteúdo da reportagem estava mantido e que não era um pedido de desculpas.

Duda admite prejuízo à imagem do presidente

São Paulo – O publicitário Duda Mendonça, consultor do Palácio do Planalto para assuntos de propaganda e publicidade, disse na Conferência Nacional de Estratégia Eleitoral do PT, que está sendo realizada no Hotel Transamérica com 1.500 líderes petistas e candidatos do partido às eleições deste ano, que o episódio envolvendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o jornalista Larry Rohter, do New York Times, arranha a imagem do presidente brasileiro. Apesar disso, Duda Mendonça não considera isso relevante, pois Lula ainda tem mais de dois anos de mandato e só será julgado ao final de seu governo.

“O caso do NYT é um fato que já passou, mas arranha a imagem do presidente. Não é uma coisa relevante. O governo tem que trabalhar. Tem muita coisa pela frente e o governo Lula só será julgado bem mais à frente”, disse Duda Mendonça, que fez uma palestra para os militantes do PT na conferência.