Brasília

– O acúmulo de sinais de que está cada vez mais próxima uma reforma do primeiro escalão do governo de Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu um clima de inquietação na Esplanada dos Ministérios. Dois ministros sob ameaça de demissão ou transferência de cargo tomaram atitudes e adotaram discursos incomuns para quem exerce cargos de confiança do presidente da República. Depois de o ministro da Educação, Cristovam Buarque, ter sugerido a estudantes que realizassem passeata em Brasília para pressionar por mais verbas para o ensino, ontem foi a vez de o ministro das Comunicações, Miro Teixeira, subir num caminhão de som dos grevistas da Empresa de Correios e Telégrafos e discursar em defesa dos servidores. Dividiu o microfone com ninguém mais que o deputado petista radical João Batista de Araújo (PA), o Babá.

Miro estava voltando de reunião no Palácio do Planalto, quando deparou-se com a manifestação em frente ao prédio de seu ministério e, espontaneamente, resolveu subir no caminhão. De microfone em punho como se estivesse num palanque de campanha eleitoral, o ministro fez pronunciamento exaltado. Fiel ao estilo aprimorado em muitos anos como político de oposição, Miro defendeu a manutenção dos Correios como empresa pública e prometeu trabalhar pelos servidores: “Temos a responsabilidade de mantê-la (a empresa) equilibrada, para que consigamos juntos continuar resistindo às tentativas de quebra de monopólio e de privatização.”

Em seguida, prometeu esforçar-se para alcançar entendimento com os grevistas: “Queremos uma empresa pública de qualidade, que é referência no Brasil e no mundo. Se Deus quiser vamos ter bom senso e chegar a um acordo, de tal maneira que o trabalhador avance, e os sindicatos consigam ter os ganhos que são inerentes à própria representação e que o governo demonstre na prática o que é democracia.”

O ministro subiu no palanque dos grevistas não apenas uma, mas duas vezes. Quando já estava em seu gabinete, resolveu voltar à rua e, num sinal de busca do diálogo, repetiu o discurso para os cerca de 200 grevistas.