Não surpreende que o papa Francisco tenha convocado um sínodo para tratar sobre a Amazônia. Em 2015, dois anos depois de ter sido eleito papa, ele publicou a encíclica de número 298 da história da Igreja com uma interessante novidade: pela primeira vez, o meio ambiente era o assunto principal de um documento do gênero. E com argumentos científicos.

Laudato Si, como o documento foi chamado, acabou elogiada por religiosos e acadêmicos. Trouxe elementos científicos para defender o “cuidado da casa comum”, como Francisco denominou a questão. Clamava pelo bom uso dos recursos naturais, pela economia de água, pela reciclagem e pela ecologia integral – ou seja, preservar o ambiente não é simplesmente não desmatar, mas também respeitar comunidades locais, suas tradições e suas culturas.

Em 192 páginas – uma introdução, seis capítulos e duas orações finais -, Francisco criticou fortemente o modelo insustentável da atual sociedade de consumo. E, ao contrário de muitos governantes atuais, ele se apoiou em argumentos científicos para corroborar que, sim, o ser humano é o grande responsável pela crise climática sem precedentes vivida pelo mundo.

“Inúmeros estudos científicos relatam que a maior parte do aquecimento global das últimas décadas se deve à concentração de gases do efeito estufa – dióxido de carbono, metano, óxido de nitrogênio e outros – emitidos principalmente por causa da atividade humana”, escreveu Francisco. “Se a tendência atual continuar, este século poderá testemunhar mudanças climáticas inéditas e uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós.”

No documento, o papa afirmou que a humanidade precisa urgentemente “tomar consciência da necessidade de realizar mudanças de estilo de vida, de produção e consumo, para combater o aquecimento global ou, pelo menos, as causas humanas que o provocam e o agravam”.

Em Laudato Si, Francisco ainda cobrou que negociações internacionais se esforcem para diminuir os efeitos da catástrofe climática. “A fraqueza da resposta política internacional é impressionante”, afirmou. “A submissão da política à tecnologia e às finanças se revela no fracasso das cúpulas sobre o clima. Muito facilmente o interesse econômico prevalece sobre o bem comum e manipula informações para não ver seus projetos afetados.”

O papa lembrou da responsabilidade com os mais pobres, como uma condição importante. “Chegou o momento de aceitar uma certa diminuição do crescimento em algumas partes do mundo, garantindo recursos para o crescimento saudável em outras partes”, escreveu. “Qualquer abordagem ecológica deve incorporar uma perspectiva social que leve em conta os diretos humanos das pessoas mais desfavorecidas. A tradição cristã nunca reconheceu como direito absoluto e inviolável o direito à propriedade privada, ela destaca a função social de todas as formas de propriedade privada.”

Francisco demonstrou preocupação que o esgotamento de recursos naturais, como a água, crie um cenário para novas guerras. E criticou fortemente a cultura do consumismo.

Na última sexta, 4, festa de São Francisco de Assis – seu homônimo e conhecido por ser um santo profundamente ligado à natureza -, o papa celebrou nos Jardins do Vaticano. Ali, ocorreu o plantio de uma árvore oriunda de Assis, terra do santo, de modo a simbolizar a ecologia integral pregada pelo papa. O sumo pontífice consagrou o Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia a São Francisco de Assis.

A cerimônia contou com representantes dos povos indígenas da Amazônia e de frades franciscanos. Há 40 anos, São Francisco de Assis foi nomeado o padroeiro dos ecologistas.