Após uma série de casos de corrupção envolvendo agentes fiscais de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) decidiu montar uma nova Corregedoria da Fiscalização Tributária (Corfisp) subordinada diretamente ao secretário da Fazenda. Segundo o titular da pasta, Renato Villela, o objetivo da medida é “evitar interferências indevidas” nas investigações internas sobre fiscais suspeitos de prática ilícita.

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No projeto de lei encaminhado em regime de urgência à Assembleia Legislativa, Alckmin extingue a atual corregedoria (Corcat), que foi criada por ele em 2002 e responde ao coordenador da Administração Tributária, chefe da Receita Estadual. O órgão já foi criticado pelos promotores que investigam a máfia do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) por arquivar apurações internas contra fiscais mesmo com evidências de corrupção.

Um dos casos aconteceu em setembro de 2014, quando uma operação do Ministério Público apreendeu R$ 450 mil em dinheiro em escritórios de dois delegados e um inspetor tributários da Grande São Paulo suspeitos de integrar um esquema de fraudes que teria desviado R$ 2,7 bilhões dos cofres públicos para favorecer empresas do setor de soja em Bauru, no interior. Os três fiscais foram exonerados em setembro deste ano.

À época, o promotor Marcelo Mendroni, do Grupo de Atuação Especial de Combate a Delitos Econômicos (Gedec), afirmou que a Corcat havia feito um relatório completo sobre o esquema de fraudes, mas o processo havia sido arquivado. Depois disso, foi a Corregedoria-Geral da Administração (CGA), vinculada à Secretaria de Governo, que auxiliou os promotores nas investigações.

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Pelo projeto de Alckmin, além de ficar subordinado ao secretário, o novo órgão de fiscalização terá um corregedor adjunto e deverá renovar 25% de seu quadro de corregedores todo ano, promovendo um rodízio entre os fiscais dos fiscais. Cabe à corregedoria, por exemplo, rever trabalhos feitos pelos agentes, como conferir o recolhimento de tributos pelas empresas e autuar sonegadores.

O antigo diretor da Corcat, José Carlos Moreira Pacheco, chegou a ser reconduzido ao cargo para mais quatro anos de mandato em janeiro deste ano, mas se aposentou dois meses depois. O posto é ocupado hoje por Carlos Roque Gomes. Questionada sobre a mudança na quinta e na sexta-feira da semana passada, a Secretaria da Fazenda não se manifestou.

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Motivações. Nas justificativas do projeto, Villela afirma que “estudos em controle interno na administração pública” feitos por instituições internacionais “apontam, como fator crítico de sucesso, que o órgão responsável pelo controle interno deve estar subordinado diretamente ao grau máximo da hierarquia da entidade em questão, como forma de evitar interferências indevidas em sua atuação”.

A mudança na corregedoria da Fazenda foi proposta pelo secretário ao governador no dia 30 de julho, seis dias após a prisão dos primeiros cinco fiscais suspeitos de integrar a máfia do ICMS, acusada de cobrar ao menos R$ 35 milhões em propina de duas empresas do setor de cobre para reduzir o imposto devido. Ao todo, dez fiscais chegaram a ser presos e são réus na Justiça. Dois deles já tiveram os bens bloqueados.

Somente a Prysmian Cabos e a Sistemas do Brasil admitiu aos promotores ter pago R$ 17 milhões em propina aos agentes, entre 2006 e 2013, nas suas filiais em Jacareí, Santo André e Sorocaba. Chamada de Operação Zinabre, a investigação contra a máfia ganhou força após o doleiro Alberto Youssef, delator da Lava Jato, ter detalhado aos promotores, em junho, os pagamentos feitos a fiscais paulista do esquema de corrupção.

Após o depoimento, ao menos dez servidores da cúpula da Receita Estadual perderam cargos, entre os quais o ex-chefe da Coordenadoria da Administração Tributária (CAT) José Clóvis Cabrera, ao qual a atual corregedoria é vinculada. De acordo com Alckmin, a exoneração dos fiscais foi “técnica”. Para Villela, envolvimentos de fiscais em esquemas de corrupção “são casos excepcionais” e não se trata de “uma questão sistêmica”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.