Brasília – Em meio às especulações sobre a reforma ministerial que deverá ser anunciada em janeiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o último discurso do ano, durante a solenidade de sanção do projeto das Parcerias Público-Privadas, para elogiar o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), que deixará o cargo em fevereiro, mas, ao mesmo tempo, sinalizar que ele não deverá ganhar um ministério, como deseja o PT. Lula disse que João Paulo não precisa de cargo para ter importância.

"Um dado concreto, João Paulo, é que você conquistou, neste teu mandato na Câmara, o direito de encostar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos, de alguém que está com a consciência tranqüila do dever cumprido (…)", afirmou o presidente, acrescentando que o deputado petista mereceria ganhar, se houvesse, o título de "revelação da política" porque agiu com lisura e autonomia na presidência da Câmara, mesmo tendo compromisso histórico com o PT e com o governo.

"Por isso, João Paulo, meus parabéns por tudo que aconteceu neste teu mandato. Certamente, você é muito jovem, terá uma carreira política excepcional e vai perceber que, quando a gente conquista o que você conquistou, não precisa mais de cargo para ter importância. Você vai perceber que vai virar uma figura importante mesmo sem ser deputado ou presidente da Câmara dos Deputados", disse Lula, em tom de despedida.

Depois da solenidade, João Paulo disse que seu projeto, depois de fevereiro, é continuar o trabalho como deputado e colaborar com o governo Lula. Ao encerrar o pronunciamento, Lula se dirigiu novamente a João Paulo, que deixará a presidência da Câmara frustrado por não ter aprovado o projeto que permitiria a sua reeleição e de José Sarney (PMDB-AP), este último à presidência do Senado.

Mais uma vez, Lula usou um exemplo do futebol para mostrar como deveriam se comportar os políticos. Lembrou que na partida Santos e Vasco, pelo Campeonato Brasileiro de 2004, ao ser substituído, Robinho foi sorrindo abraçar Basílio, que entrou em seu lugar, ao contrário da maioria dos jogadores, que saem contrariados de campo, muitas vezes desejando o fracasso de seu substituto. "Na política também é assim. Tem gente que fica o tempo inteiro torcendo para as coisas não darem certo: Ah, isso não pode dar certo. Imagine se dá certo? Esses meninos podem crescer, podem até ganhar eleições. Então, não pode dar certo", argumentou Lula.

Esse trecho do discurso foi visto por políticos presentes à cerimônia como um recado claro a movimentos que começam a surgir na Câmara para desestabilizar a candidatura do deputado Luiz Eduardo Gre-enhalgh (PT-SP), escolhido pela bancada do PT para suceder João Paulo. Grupos de deputados, que resistem a Gre-enhalgh, querem lançar a candidatura de Virgílio Guimarães (PT-MG), que chegou a postular o cargo. Logo depois da solenidade, Lula reuniu-se em seu gabinete com João Paulo, Virgílio, Greenhalgh, Professor Luizinho (PT-SP), Sigmaringa Seixas (PT-DF), Paulo Delgado (PT-MG) e Arlindo Chinaglia (PT-SP), para, mais uma vez, pedir unidade à bancada.