Humbero Costa e o escândalo dos vampiros:
“Lula não quer pedra sobre pedra”.

Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recomendou ao ministro Humberto Costa para que ele vá até as “últimas conseqüências” nas investigações sobre corrupção na compra de hemoderivados. “Que não fique pedra sobre pedra”, disse o presidente ao ministro. Lula e Costa conversaram na manhã de ontem durante 40 minutos na Base Aérea, pouco antes de o presidente embarcar para a China.

Este foi o primeiro encontro dos dois depois de deflagrada a Operação Vampiro, que levou à prisão de 14 pessoas na quarta-feira – dos quais seis eram integrantes do Ministério da Saúde. As investigações começaram em março do ano passado, a pedido do Ministério da Saúde, depois de denúncias de fraude em licitações para compra de hemoderivados – produtos usados por hemofílicos.

Quando as primeiras prisões da Operação Vampiro foram feitas, Costa estava em Genebra, participando da Assembléia Mundial de Saúde. Como um de seus assessores foi preso, o ministro antecipou seu retorno e chegou em Brasília anteontem às 23h30. O ministro saiu do encontro com Lula sem dar entrevista. Para reagir ao desgaste, o ministro vai ampliar as investigações.

Ontem estava sendo acertada com a consultoria jurídica do Ministério uma forma de se auditar todos os contratos de compra firmados durante este governo. Também estava sendo estudada a ampliação das investigações para outras áreas, além dos hemoderivados, pois havia indícios de que as irregularidades cometidas pela Coordenadoria de Recursos Logísticos eram generalizadas. A estratégia também permitiria avançar na análise de contratos suspeitos, como os da compra de 800 máquinas usadas para hemodiálise no governo passado, a preços supostamente superfaturados.

Enquanto isso, a Polícia Federal já começou uma devassa em todos os contratos feitos pelo Ministério da Saúde, inclusive nas compras emergenciais de medicamentos, e a Justiça Federal decretou a indisponibilidade de bens de todas as 17 pessoas que tiveram a prisão decretada por causa da fraude da licitação para a compra de hemoderivados. Ontem, os investigadores descobriram que somente no início deste ano, laboratórios e empresas de consultoria brasileiras e do exterior enviaram mais de R$ 1 milhão para pagar propinas a funcionários do Ministério.

Da última remessa, de R$ 350 mil, que foi apreendida pela PF, R$ 200 mil seriam para Luiz Cláudio Gomes da Silva, ex-coordenador de Logística, um dos homens de confiança do ministro Humberto Costa. Ele foi preso na quarta-feira, junto com outras 13 pessoas, durante a Operação Vampiro.

Alceni nega conhecer os vampiros

Ex-ministro da Saúde no início do governo Fernando Collor de Mello, Alceni Guerra disse ontem que nenhuma das pessoas que estão sendo acusadas pela Polícia Federal de fraudar licitações para a compra de hemoderivados foram nomeadas em sua gestão. “Não conheço nenhum deles”, afirmou. Guerra acrescenta que, ao assumir o cargo, em março de 1990, pediu à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), do Rio de Janeiro e ao Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), que apresentassem projetos de plantas de desenvolvimento de hemoderivados. “Retirar da iniciativa privada o comércio de sangue era uma decisão de governo”, disse Guerra. “Não por denúncias de corrupção, mas por questão de segurança, pois era o pique da aids.”

O alto preço dos hemoderivados também pesou na opção por laboratórios públicos brasileiros. “Considerava uma exorbitância o que era pago”, acentuou o ex-ministro. O ex-presidente do Tecpar, Lauro Alcântara, elaborou um projeto, baseado na planta da empresa sueca Pharmacia. “Era barato, enxuto e com inativação do vírus HIV”, disse Alcântara. Com valor de cerca de US$ 10 milhões, ele ocuparia 23 funcionários e seria suficiente para processar todo o plasma da região Sul. O projeto ficou pronto depois de janeiro de 1992, quando Guerra deixou o Ministério. Ele foi entregue ao ex-ministro Adib Jatene e, depois, passou para seu sucessor Jamil Haddad. “Nós cobramos, mas nunca tivemos resposta”, afirmou. “Esse é um setor que envolvia muito dinheiro.”