O senador Alvaro Dias (PSDB-PR) garante que os tucanos têm os melhores quadros partidários, mas não consegue mobilizar a sociedade a se insurgir nas ruas contra o governo Lula. Vice-líder da bancada no Senado, o paranaense avalia que o partido também foi atingido pela descrença que se generalizou na sociedade a partir dos recentes escândalos políticos. "A pergunta que a sociedade se faz é: substituir o presidente Lula por quem? Isso inibe e explica por que não há apelo popular para o impeachment. A sociedade aguarda a finalização das investigações e o início do processo eleitoral", diz.
Integrante da CPMI dos Correios, o senador acredita que a oposição perdeu a oportunidade de pedir o impedimento de Lula logo após o depoimento em que o publicitário Duda Mendonça admitiu ter recebido dinheiro de caixa dois do PT no exterior. "A descrença atinge todas as instituições públicas, partidos políticos e políticos de forma geral. Nós só sairemos do chão, em matéria de credibilidade, se concluirmos bem esse processo", afirmou ele em entrevista ao site Congresso em Foco, da qual reproduzimos alguns trechos.
Segundo o parlamentar, "foi o sonho do projeto de poder a longo prazo" que levou um grupo de petistas a partidarizar o governo e tirar proveito dos recursos públicos. "A idealização não foi de uma única pessoa, mas de um grupo", afirma. "Um grupo de arquitetos formado a partir do presidente da República, passando pelo José Dirceu, mas envolvendo outras lideranças mais afinadas com o presidente. Aí vêm José Genoino, Delúbio Soares, Waldomiro Diniz, Marcelo Sereno, Sílvio Pereira, Luiz Gushiken, um grupo que convivia no interior do partido e depois no interior do governo com o privilégio de circular com facilidade em todos os ministérios", garante.
Apesar da montagem desse "escabroso" projeto, Alvaro Dias considera que a oposição foi cautelosa na reação com o governo petista. Ele atribui a prudência do PSDB em relação a um eventual pedido de impeachment de Lula à dificuldade do partido em preencher o espaço ocupado pelo PT na mobilização da sociedade civil. "O PSDB sempre foi tido como um partido de quadros. Um partido qualificado por possuir os melhores quadros, mas nunca foi um partido de base popular, de militância aguerrida. É um partido que não tem a característica de mobilizar a população nas ruas. E, exatamente pensando nas conseqüências, esta foi uma decisão do partido neste momento: de não provocar mobilização popular. O partido não sentiu ambiente apropriado para esse tipo de procedimento político", avalia.
A oposição capitalizou todo o desgaste do PT e do governo Lula na crise?
Alvaro Dias – A oposição tem atuado responsavelmente, pensando no interesse do País. É claro que ela investiga, porque é o seu dever, mas não aposta "no quanto pior, melhor". Há uma exigência da sociedade para que se passe o País a limpo, e a oposição é um instrumento indispensável nessa tarefa. Nós podemos concluir bem esse processo ou desgastar ainda mais a imagem das instituições públicas. Se tivermos competência para apresentar um diagnóstico completo da crise moral que se abateu sobre o País e responder à opinião pública a essa expectativa, poderemos estar preparando o País para um salto de qualidade que ocorreria certamente com as eleições do ano que vem.
O senhor associa esse salto de qualidade a uma eventual vitória do PSDB?
Imagino que, com a valorização dos políticos que honram os compromissos e a condenação, pelo voto, daqueles que não correspondem às expectativas que geraram, independentemente do partido vitorioso, é necessário separar o joio do trigo, separar uns dos outros. E esse é o momento adequado para essa avaliação.
O PT alega que a oposição não quer investigar as denúncias relacionadas ao PSDB, ao governo anterior.
Eles trouxeram um episódio isolado em 1998, em Minas Gerais. E querem que fiquemos martelando nesse episódio até quando? É evidente que é preciso tirar as conclusões desse episódio. É evidente que a investigação deve ser isenta e não pode privilegiar esse ou aquele partido. Ocorre que nós estamos investigando, e esse foi o propósito da CPMI, um gigantesco esquema de corrupção no governo atual. O PT teve oportunidade e até o dever de, ao assumir o governo, constatando o esquema de corrupção, tomar providências. Se o PT disse que sabia da existência de corrupção no governo anterior, e na Presidência da República não tomou providências, cometeu crime de responsabilidade, porque prevaricou.
Mas até por isso não se justificaria a investigação sobre os casos Eduardo Azeredo e Fundacentro?
Não, até porque, relativamente ao episódio da campanha de 1998, ninguém apontou a utilização de dinheiro público. Se é uma questão de caixa dois, ótimo: que se recorra à Justiça Eleitoral e que a Procuradoria Eleitoral faça a investigação necessária e julgue. Nós estamos investigando corrupção no governo Lula.
Numa autocrítica, que erros a oposição tem cometido nesta crise?
Os erros são inevitáveis, até porque, na turbulência política em que nos encontramos, é impossível acertar sempre. Um momento importante que não aproveitamos devidamente foi o depoimento do Duda Mendonça, quando ele forneceu os elementos necessários para discutirmos o impeachment do presidente. Houve uma posição de paralisia dada a gravidade do momento. É evidente que a instalação de um processo de impeachment depende essencialmente de vontade popular.
Mas até que ponto a CPMI ainda pode chegar?
Acredito que o trabalho dela é mostrar, com maior clareza, a origem dos recursos. Além de mostrar a origem e o caminho da origem até o destino, apontar com bastante coragem as pessoas responsáveis, os arquitetos do plano e os operadores do sistema, que é a conseqüência dessa relação promíscua Executivo-Legislativo, envolvendo alguns partidos e muitos políticos. O governo Lula se constituiu num corruptor com capacidade de envolver muita gente. Certamente, não vamos alcançar todos os envolvidos, mas muitos deles.
Quem é o grande responsável por esse esquema?
Foi o sonho do projeto de poder a longo prazo. A idealização não foi de uma única pessoa, mas de um grupo. Um grupo de arquitetos formado a partir do presidente da República, passando pelo José Dirceu, mas envolvendo outras lideranças mais afinadas com o presidente. Aí vêm José Genoino, Delúbio Soares, Waldomiro Diniz, Marcelo Sereno, Sílvio Pereira, Luiz Gushiken, um grupo que convivia no interior do partido e depois no interior do governo com o privilégio de circular com facilidade em todos os ministérios.


