“Nenhum político bebeu com o povo como eu.”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desistiu de cassar o visto do jornalista Larry Rohter, correspondente do New York Times no Brasil.

O anúncio foi feito pelo ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, logo após divulgar que Rohter enviara por carta um pedido formal de desculpas ao presidente pelo mal-estar causado por reportagem assinada por ele afirmando que Lula exagerava no consumo de bebidas alcoólicas.

Em dado momento do pedido, ele diz que não teve a intenção de ofender Lula com a reportagem. A parte mais importante do comunicado de Rohter diz: “O requerente declara jamais ter tido a intenção de ofender a honra do Excelentíssimo Presidente da República a quem já pôde até mesmo entrevistar em algumas ocasiões, e reafirma seu grande afeto pelo Brasil e seu profundo respeito às instituições democráticas brasileiras, incluindo a Presidência da República”. O NYT, porém, recusou-se a pedir retratação pelo incidente.

Entrevista

Em entrevista ao jornalista Hélio Campos Mello, da revista IstoÉ, que será distribuída hoje às bancas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desabafou e disse que o Brasil não é governado por um alcoólatra. O presidente afirmou que o grande problema da matéria feita por Larry Rohter para o New York Times foi o fato do jornalista nem sequer conhecê-lo e, mesmo assim, fazer afirmações levianas prejudicando a Nação.

“Esse cidadão nunca esteve comigo, nunca viu o meu cotidiano. Não poderia passar para fora que o Brasil é governado por um alcoólatra. Eu duvido que qualquer companheiro tenha me visto bêbado alguma vez. Faço este desafio para a imprensa nacional. Ele poderia ter dito tudo o que quisesse: o presidente Lula vai nos coquetéis e bebe, vai nos almoços e toma um uísque. Poderia até me acompanhar marcando a quantidade que eu tomo. Tomou dois, tomou um, tomou um copo de vinho. Poderia até fazer um cálculo para o IBGE. Mas não. Baseado em notícias de um tal de Mainardi, que eu não sei aonde fica, baseado numa figura como o Cláudio Humberto e baseado no Brizola – que deve ter muita experiência de alcoolismo mesmo -, ele afirma que o Brasil corre risco porque o presidente Lula é um bêbado e o povo está preocupado com isso. Esse é o problema. Nenhum político neste país já bebeu com o povo como eu bebi”, afirmou Lula.

Prejuízos

O presidente da República disse ainda que jamais escondeu seus hábitos com relação a bebidas alcoólicas. Lula pondera que sua situação agora é outra. Coloca-se como o presidente do Brasil e admite que a imagem de alcoólatra é prejudicial ao país. “Veja a situação. Quando eu chegar na África do Sul, em Angola, quando eu for falar com o sheik da Arábia Saudita, ele vai dizer: “Pô, será que esse cara está bêbado? Ele é um alcoólatra”. Fiquei indefeso. O Brasil não é governado por um alcoólatra. Qual era o único instrumento que eu tinha? Bom, esse cidadão não tem direito de estar aqui. Essa pessoa é uma persona non grata no Brasil. Está vencendo o contrato dele e não vamos renovar”, declarou o presidente, antes de decidir suspender o cancelamento do visto.

Sarney e Cunha festejam

São Paulo (AG) – “O episódio foi didático. Ficou claro, em primeiro lugar, que é preciso ter muito cuidado com os assuntos relacionados à liberdade de imprensa. O presidente revelou sua justa indignação. O Executivo reagiu; o Legislativo pressionou; e o Judiciário funcionou. E o país, no final, deu uma prova de maturidade”, afirmou o presidente do Senado, José Sarney, festejando a decisão do governo.

Pela manhã, o presidente da Câmara dos Deputados, João Paulo Cunha, havia afirmado que o governo Lula precisa cumprir a decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que deu salvo-conduto para que o jornalista americano Larry Rohter, do The New York Times, permaneça no Brasil, esquecer o episódio e cuidar dos problemas do país.

“Agora é tocar a bola pra frente e cuidar do Brasil. Não acho que o governo deva recorrer da decisão da Justiça”, disse o presidente da Câmara. João Paulo Cunha disse que não tem importância avaliar agora se o governo saiu vitorioso ou derrotado no episódio.

“O que importa agora é que o caso já se encerrou, e o que está decidido, está decidido”, disse o presidente da Câmara.

Desistência cessa processo no STJ

Rio e Brasília – Ao conceder liminar em habeas corpus apresentado pelo senador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) em favor do correspondente do The New York Times Larry Rohter, o ministro Peçanha Martins, do Superior Tribunal de Justiça, afirma que “no Estado democrático de direito não se pode submeter a liberdade às razões de conveniência ou oportunidade da administração”. Ele disse que a desistência de expulsar o jornalista cessa o processo no STJ.

O ministro argumenta que o Brasil é um Estado democrático e que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva contribuiu com intensa participação política para a instauração da democracia plena no país e se conduz com honra e dignidade. Além disso, afirma o ministro, a imprensa é um dos pilares da democracia e é livre no país a expressão da atividade intelectual, artística, cientifica e de comunicação.

O ministro ressalta que o jornalista teve cancelado o visto de permanência no país por ter assinado reportagem dita leviana, mentirosa e ofensiva à honra do presidente e questiona se o Ministério da Justiça poderia fazê-lo. Segundo Peçanha Martins, o ato de concessão ou revogação de visto de permanência no país de estrangeiro, em tese, está subordinado aos interesses nacionais (artigo 3.º da Lei n. 6.815/80).