Vitoriosa numa eleição em que foi a única candidata entre dez homens e após ter enfrentado o partido que a renegou, a nova prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins (PT), promete fazer a melhor gestão que a capital cearense já teve, mas se diz vacinada contra o deslumbramento do poder. As primeiras lições começaram quando deu início às articulações para montar o secretariado. "Está sendo mais difícil do que foi ganhar as eleições", disse ela em entrevista.

A expectativa sobre sua gestão extrapolou Fortaleza. A senhora está ansiosa?

Luizianne Lins: Estamos vivendo um momento histórico de Fortaleza. A candidatura contrariou alguns prognósticos e isso acaba causando um sentimento de que, para nós, essa experiência da gestão tem que dar certo. Temos que fazer a melhor gestão que essa cidade já vivenciou. Vamos ter que fazer um grande governo, inclusive por causa da expectativa nacional. Por onde a gente anda no Brasil as pessoas vêm me cumprimentar e dizer que torceram e que estão torcendo por mim. Temos que aproveitar esse clima pró-Fortaleza, porque a cidade tem uma dívida social histórica, é uma das cidades que têm maior concentração de renda e um dos maiores índices de pobreza nacionais. Ao decidir me ter como prefeita, sabendo que eu não tinha apoio dos caciques, a cidade resolveu assumir uma posição política. No segundo turno, íamos com 13% de folga sobre o adversário e isso é uma coisa enorme diante de todos os preconceitos que foram tentados na campanha: falta de experiência, jovem demais, mulher e a homofobia. Teve a crítica oficial que, inclusive, foi a partir daquela reportagem do Globo (sobre a plataforma gay da candidata) que foi usada com exaustão na TV pelo adversário. A reportagem em si não traduzia muito bem um ambiente aqui.

A senhora vai para o P-SOL, da senadora Heloísa Helena?

Luizianne Lins: Não está no meu horizonte mudança de partido. Quando Heloísa foi expulsa do PT, sofri muito porque sempre fomos muito amigas, inclusive de dividir confidências. Acompanhei todo o sofrimento dela. Participei ativamente dos debates até o dia da expulsão, um momento muito marcante. Quando não saí do PT naquele momento, eu também estava decidindo um caminho. Então resolvi apostar no PT. Não abro mão de ser petista. Sempre digo que sou tão petista quanto Lula, quanto José Genoino (presidente nacional do PT) e quanto José Dirceu (chefe da Casa Civil). Estou há 14 anos no partido e é possível ter um pensamento diferenciado em relação a algumas questões. O PT sempre foi isso. É claro que as opções que você faz na vida não são para sempre. Nem casamento, imagine relação política. Só filho que é para sempre. Não posso ficar falando como vou estar pensando daqui a dez anos. Mas meu horizonte agora é ficar no PT.

O que a experiência do PT na Presidência tem de positivo?

Luizianne Lins: Uma coisa é administrar cidades e estados, outra é estar no foco do governo central. Apesar de ter uma leitura crítica, de que não tenho que concordar com tudo, reconheço coisas importantes que estão mudando, que o governo federal está promovendo. Podemos citar a política de direitos humanos ou questões importantes no aspecto da agricultura familiar.

A senhora continua crítica da política macroeconômica?

Luizianne Lins: Mesmo que a economia esteja apresentando sinais muito claros de crescimento, ainda é nossa preocupação porque a nossa grande duvida é se esse crescimento é sustentável. O índice de desemprego está diminuindo, inclusive em Fortaleza. Isso é real. Mas ao mesmo tempo fica a nossa compreensão de que o fato de se estar no governo não significa que se chegou ao poder. Nos tempos de neoliberalismo, nos tempos de capitalismo tardio, chegar ao governo central não significa chegar ao poder, que está cada vez mais fora do Estado. O poder real é de quem comanda esses organismos internacionais, os interesses dos chamados países de primeiro mundo.

O que a senhora aprendeu sobre o poder na transição?

Luizianne Lins: Já sou vacinada com esse negócio de poder. Não tenho a menor vocação para emergente e muito menos para me deslumbrar. Já tinha uma certa familiaridade porque fui por seis anos vereadora e sou deputada estadual. O poder, para mim, nada mais é do que a possibilidade de ser um instrumento real de interferência na vida das pessoas para melhor. No meu caso, cuidar do meu povo. Cuidar da sociedade, ajudar Fortaleza a ser melhor, ajudar as pessoas a serem melhores.

Como será sua relação com a Câmara, considerando que o PT elegeu três vereadores em 41?

Luizianne Lins: Minha maior vitória será amanhã saber que foi eleita uma mesa diretora em que a prefeita não teve que entrar no troca-troca de cargos por votos. Isso vai ser histórico, porque mostra a maturidade dos vereadores e uma nova relação de respeito com a Câmara, em que os vereadores serão ouvidos. Todos terão acesso total à prefeita independentemente do partido. Mas não será moeda de troca para o vereador se eleger. Não quero saber de falar em cargos, de negociar nada.

Foi decisão sua dizer que o secretariado não terá independência para nomear o segundo e terceiro escalões?

Luizianne Lins: Foi. Espelhei-me no que acho que dá certo. Temos que evitar os feudos de poder. A máquina pública tem que trabalhar para o povo. É natural que todo mundo que vem para uma administração queira crescer politicamente. Isso é legítimo. Mas você não pode deixar que isso seja o motor número um. O motor número um é o interesse da sociedade.

A senhora está preparada para as cobranças?

Luizianne Lins: Teve um determinado momento da campanha, no segundo turno, que comecei a pensar que realmente poderia ganhar. Chamei as pessoas que trabalhavam com o programa de TV e orientei que não saísse texto algum sem algumas expressões-chave, como "não tem solução da noite para o dia??, "não se pode resolver os problemas da cidade em quatro anos??, "não tem varinha de condão??, "não tem fórmula mágica??.

Quais as suas prioridades?

Luizianne Lins: Educação, saúde e habitação têm que ser prioridade absoluta.