Livro de ex-embaixador defende ação dos EUA em 64

Lincoln Gordon, que foi embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966 ? inclusive durante o decisivo e controvertido momento do golpe de 1964 ? está no país outra vez para lançar um livro com a sua visão sobre essa experiência.

A obra, Brasil, uma segunda chance a caminho do Primeiro Mundo, serve de tema para uma palestra do autor, hoje às 17 horas, no auditório da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo. Amanhã será o lançamento brasileiro, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional. Quarta-feira a dose se repete no Rio de Janeiro: palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e lançamento na livraria do Museu da República.

Durante seu período como embaixador no Rio de Janeiro (a embaixada ainda não havia mudado para Brasília), depois do golpe militar, o atual autor da Segunda chance tinha tanta influência que o jornalista Otto Lara Resende cunhou uma frase que entrou para o anedotário político brasileiro: ”Chega de intermediários. Lincoln Gordon para presidente.”

Não se trata de um livro de memórias, reminiscências ou historiografia propriamente dita, mas de uma obra engajada. Para Gordon, a “primeira chance” do Brasil ocorreu com Juscelino Kubitschek, mas foi desperdiçada pelo populismo de João Goulart. Veio a ditadura e faltou democracia; em seguida retornou a democracia, mas junto com ela o populismo. E a “segunda chance” só surgiu em 1994, com o Plano Real, seguido pelos governos Fernando Henrique.

Embora sendo também um acadêmico ? deixou uma cadeira na Universidade de Harvard para vir ao Brasil ?, Gordon não pode ser incluído entre outros famosos brasilianistas norte-americanos, Thomas Skidmore e Armand Dreyfuss, que ajudaram a desvendar aspectos da história recente do Brasil. No seu caso, o engajamento leva a toldar a verdade e até escamoteá-la. Em seu livro, nega taxativamente qualquer participação no golpe de 1964 e proclama até a “inocência” do seu adido militar, coronel Vernon Walters, também agente da CIA (serviço de inteligência do Pentágono).

Para a sorte da verdade histórica, a participação norte-americana no golpe já se encontra documentada, inclusive por papéis do Departamento de Estado, liberados para consulta em 1976. Graças a eles foi revelada a “Operação brother Sam”, de apoio militar aos golpistas no caso de guerra civil, mobilizando o porta-aviões “Forrestal”, um porta-helicópteros, seis destróieres, quatro petroleiros, uma esquadrilha de caças e 100 toneladas de armas leves.

É conhecido também o papel pessoal do embaixador Lincoln Gordon nó pré-1964. É justamente na sua gestão que os Estados Unidos passam a uma atitude de distância e em seguida de sabotagem e conspiração contra o governo legalmente constituído no Brasil. Ele questiona a política externa independente de Goulart e a presença de “comunistas” no governo. Estimula doações à rede do Ipes-Ibad, que participa ativamente do golpe. Recomenda o não-reescalonamento da dívida externa brasileira.
Recomenda que só se conceda créditos aos governos estaduais anti-Jango. Quanto a Vernon Walters, visita diariamente o general Castelo Branco e acompanha cada passo da conspiração.

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