Há quatro meses, índios da etnia ticuna têm sua própria delegacia para combater o crime na aldeia Umariaçu, a 1.105 km de Manaus. As armas usadas pelos “policiais” indígenas são palmatória, chicotes e cassetetes. Eles usam fardamento com logotipo de dois cassetetes e um facão do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), design e nome criados por eles mesmos. Os detidos são levados a uma prisão de 1,5 metro quadrado.

“Os índios estavam cansados da omissão do poder público e resolveram tomar a iniciativa para proteger sua gente e suas terras”, disse o dirigente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Jecinaldo Sateré. Na semana passada, Sateré foi a Tabatinga para reunir-se com pajés da aldeia Umariaçu. “Pediram apoio para a delegacia, e anteontem encaminhamos a carta ao Ministério da Justiça e ao governo do Amazonas”, conta. Eles pedem a legitimação da delegacia, treinamento para os “policiais” e pagamento, já que todos são voluntários.

Os indígenas, homens e mulheres, são ex-soldados do Exército e usam essa experiência para coibir o crime. Dentro da aldeia, foi proibida a entrada de bebidas alcoólicas desde que a delegacia começou a funcionar. Segundo Sateré, o poder público não investe em espaços de lazer e esporte para os jovens, muitas vezes vítimas do alcoolismo.

Os “policiais” também fazem serviço de ronda, controlando o fluxo de veículos e pessoas na aldeia. Cerca de 60 índios atuam no projeto. A posição da Secretaria de Segurança do Estado é de “não reconhecimento da delegacia, que é uma forma de milícia e está fora da lei”. Procurado, o Ministério da Justiça não se manifestou.