Foto: José Cruz/Agência Brasil

Movimento no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek, em Brasília, fechado desde as 18h44 de ontem.

Brasília – Depois de meses de queda-de-braço com as autoridades do setor aéreo, os controladores de vôo radicalizaram e decidiram paralisar as operações aéreas em todo o País a partir das 18h50 de ontem. Foi o segundo passo de uma mobilização que começou ao meio-dia, quando os sargentos controladores iniciaram uma greve de fome. A medida paralisou todos os 49 aeroportos comerciais do país para decolagens, reconheceu a Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero).

A decisão dos controladores de vôo foi tomada em reunião na própria sede do Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo (Cindacta 1), depois que os sargentos foram advertidos pelo próprio comandante da unidade, coronel Carlos Aquino, para que refletissem sobre a decisão de se aquartelarem e fazerem greve de fome. O coronel avisou que não hesitaria em ?usar o regulamento? e lembrou que os subordinados poderiam ser enquadrados por promoverem um motim.

Irritados com as ameaças, os controladores resolveram suspender a greve de fome e partir para a paralisação total dos vôos. O estopim para o início da movimentação foi a transferência obrigatória do sargento controlador Edileuso, do Cindacta-1 para o centro de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Segundo a Aeronáutica, ?por necessidade do serviço?. O sargento Edileuso era diretor de mobilização da Associação Brasileira dos Controladores de Vôo.

Além dos cerca de 120 militares de Brasília, seguiam o mesmo caminho os controladores de Manaus e do Galeão, no Rio de Janeiro. Enquanto isso, a FAB, oficialmente, dizia ignorar o movimento, alegando que não havia ninguém no quartel que não fossem as pessoas que estavam trabalhando.

Mas, por outro lado, as chefias determinavam que fosse preparada comida para todos e alojamento para os que quisessem ficar no quartel. Não esperavam, no entanto, a radicalização. Ao mesmo tempo, o próprio comandante, brigadeiro Juniti Saito, já se reunia com setores jurídicos do Ministério da Defesa para ver em que poderiam enquadrar o pessoal.

Dezoito insubordinados foram presos. Por volta das 18h50, os controladores de vôo comunicaram às chefias, do Cindacta-1 de Brasília, que iam paralisar suas operações e que só iriam autorizar o pouso dos aviões que já estavam no ar ou que estivessem em emergência ou transporte de pacientes transplantados. Exigiam a presença de uma autoridade do primeiro escalão para negociar. Eles querem desmilitarização do trafego aéreo, melhoria dos equipamentos e criação de uma carreira de Estado. As mobilizações são uma resposta às represálias da Aeronáutica, que está transferindo os sargentos controladores de suas sedes para outras cidades, aleatoriamente.

Condições seriam ?precárias? no Cindacta 2

Lígia Martoni

Ontem, no Cindacta 2, localizado em Curitiba, ninguém comentava o assunto e nem permitia o contato com os controladores. No entanto, fontes ligadas à aviação informaram que todo o setor vem sofrendo com as operações-padrão, mas que a atitude é somente uma resposta a um problema antigo. ?Eles estão fazendo o que deviam fazer constantemente; trabalham em número reduzido e ganham salários defasados?, defendia uma delas. Outra, que já atuou no Cindacta de Curitiba, afirma que conhece controladores que trabalham no local e que as condições são precárias. ?Eles não comentam muito o assunto, já que ocupam uma posição estratégica, mas garantem que são muito poucos trabalhando em situação de constante tensão. A questão é como vão treinar novos controladores. Querem desmilitarizar o setor, mas não têm como preparar civis para isso?, dizia.

Na página Megafone, do site do Clube dos Militares da Reserva e Reformados da Aeronáutica Brasileira, alguns controladores de vôo de Curitiba incitam para a operação-padrão. Uma das mensagens, postada em 3 de fevereiro, fala da insatisfação de o tráfego aéreo estar ?nas mãos de gente incompetente e com total desconhecimento desta profissão?. Mensagens enviadas para o endereço de contato retornam sem que sejam entregues.

No Afonso Pena, apagão aéreo e nevoeiro causaram 31 atrasos

Ontem, apesar de a Infraero no Afonso Pena ter registrado atrasos dentro da média dos últimos dias, teve gente que chegou a esperar por mais de cinco horas pelo vôo. Até as 17h de ontem, das 105 operações previstas, 12 estavam com atraso superior a uma hora (média de 1h37), enquanto 31 estavam atrasadas entre 15 minutos e uma hora (média de 29 minutos), o que representa 41% no total. Os atrasos foram creditados a possíveis protestos em outros aeroportos.

A dona-de-casa Tiene Pohren e a filha Andressa Pohren, que aguardavam o vôo 1695 da Gol para Porto Alegre, marcado para as 12h25, tinham previsão de embarcar somente às 17h40. ?Era para termos viajado nessa madrugada, mas passamos quatro horas esperando para no final informarem que o vôo não sairia?, disse Andressa. Três vôos foram cancelados no início da madrugada porque o aeroporto ficou fechado para pousos e decolagens devido ao nevoeiro. Quero uma CPI?, reivindicava. (L.M, com AE)