Nos próximos 45 dias, o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP) terá que usar toda a sua experiência de advogado para desfazer a imagem pouco positiva que a maioria dos deputados faz dele e garantir sua eleição como presidente da Câmara. Sua trajetória política, que o credencia com a sociedade (ter advogado para presos políticos, integrantes do MST, sua ligação com a Igreja Católica e a luta pelo desarmamento político) é um fator de resistência a seu nome, especialmente na bancada ruralista.

Integrante da chamada elite do Congresso, ele também é visto como uma pessoa sisuda, distante, antipática e nada afeita a gentilezas, como o simples ato de cumprimentar os colegas. Há também quem o acuse de centralizador. Os que convivem com ele mais de perto, no entanto, o defendem. "Ele é tímido, um cara fechado, reservado, é do temperamento dele. As resistências existem por parte de quem não o conhece e ele mesmo vai quebrar essas resistências, com muita conversa. O riso fácil não é sinônimo de bom predicado", diz o deputado Sigmaringa Seixas (PT-DF).

Fora do PT, Greenhalgh terá um importante cabo eleitoral: o deputado Antônio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA). O elo político entre os dois surgiu durante a convivência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que Greenhalgh presidiu em 2003. Segundo o pefelista, o petista mostrou capacidade de condução e diálogo, pulso e respeito ao papel da oposição. "O primeiro grande teste do governo Lula foi a aprovação da reforma da Previdência na CCJ. Fernando Henrique tentou e a reforma sempre empacou na CCJ. Greenhalgh soube conduzir o debate, a hora de recuar e de avançar e garantiu às oposições o direito de se posicionar, sem discriminar deputados", disse o deputado baiano.

Embora o líder da bancada pefelista, José Carlos Aleluia (BA), tenha apresentado sua candidatura avulsa à presidência da Câmara, ACM Neto irá sugerir que o partido respeite o princípio da proporcionalidade e o direto de a maior bancada eleger o presidente da Câmara: "Greenhalgh é um candidato à altura do cargo. Não há motivo para uma candidatura avulsa do PFL que poderia pôr em risco a harmonia na Câmara.

O petista já recebeu apoios importantes entre os tucanos, como o de Aloysio Nunes Ferreira, que promete licenciar-se da secretaria que ocupará na prefeitura paulistana para votar em Greenhalgh. O apoio do PSDB será selado com o apoio do PT ao candidato do prefeito José Serra à presidência da Câmara de Vereadores de São Paulo. "É um candidato à altura do cargo, tem a vida limpa. Mas a Câmara é uma Casa de discussões, do bom diálogo. O bom diálogo não pressupõe sair cumprimentando todos e dando tapinhas nos ombros, mas humildade e capacidade de ouvir", diz o secretário-geral do PSDB, deputado Bismarck Maia (CE).

Amigo e ex-advogado de Lula, Greenhalgh tem como ídolos o ex-senador Teotônio Vilela e dom Paulo Evaristo Arns. Vaidoso e cuidadoso com a saúde, mantém alimentação saudável durante a semana que passa em Brasília, para, nos fins de semana, poder comer sem culpa uma bela picanha, como diz.

Pai coruja, chama os filhos Mariana, de 23 anos, e Luiz Paulo, de 25, de "meus amores" e não esconde o orgulho de saber que devem seguir seus passos como advogado. Romântico, é fã de Roberto Carlos.

"Tenho que ter postura de magistrado"

Escolhido como candidato de consenso do PT à presidência da Câmara, o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh diz que aposta no diálogo para vencer as resistências ao seu nome. Boa parte delas vem da bancada ruralista, já que Gre-enhalgh é historicamente ligado a movimentos como o MST. Ele diz que não é "incolor nem inodoro", mas que, se eleito, não misturará as coisas.

Como o senhor pretende vencer a resistência a seu nome entre setores conservadores da Câmara?

Greenhalg: Vou procurar os 512 deputados, a bancada do agronegócio e a primeira coisa que vou dizer é que saberei distinguir a função de presidente da Câmara da de ter relações com os movimentos sociais, como os sem-terra. Jamais usarei da presidência da Câmara para conduzir tendenciosamente qualquer tipo de matéria.

Mas esse temor persiste.

Greenhalg: Sou uma pessoa que tem posições políticas, sou independente, não sou uma pessoa insossa, inodora e incolor. Sei o que significa ser presidente da Câmara. Tenho que ter postura de magistrado, de compatibilizar antagonismos, fazer avançar a pauta. Se for presidente da Câmara, quero aconselhar o governo a diminuir o número de MPs.

Dizem na Câmara que o senhor tem dificuldades de diálogo.

Greenhalg: Esse é meu quarto mandato. Fui presidente da CCJ no ano em que conseguimos aprovar a reforma da Previdência e a tributária. Se não tivesse diálogo, trânsito, paciência, essas reformas não tinham passado.

O senhor defenderá interesses da corporação, como aumento de salários?

Greenhalg: A Constituição estabelece o teto do Supremo Tribunal Federal e estabelece que o salário dos deputados deve ser equiparado ao nível dos ministros do STF. Sou favorável a isso e já era antes de ser candidato a presidente. Sendo presidente, vou discutir essa questão da equiparação salarial aos ministros do Supremo.

Como presidente da Câmara, qual será sua relação com o governo Lula?

Greenhalg: Tenho e sempre tive por Lula respeito, admiração e uma relação de amizade e franqueza. Por isso, vou ser franco. Assim que construímos nossa relação pessoal e política. Mesmo com algumas opiniões divergentes ele sabe que pode confiar em mim.