Iperó – O ministro da Defesa, José Viegas, disse ontem em Iperó que nenhum brasileiro vai permanecer contra sua vontade em territórios próximos do Iraque, sujeitos a sofrerem as conseqüências do iminente ataque dos EUA. Segundo ele, desde a noite de segunda-feira, dois aviões da Aeronáutica estão de sobreaviso, prontos para resgatar os brasileiros que desejarem voltar ao País. Os aparelhos estavam baseados no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro.

O resgate está sendo coordenado pelo Itamaraty. As aeronaves vão pousar em aeroportos de países vizinhos, como o Kuwait, a Arábia Saudita e a Turquia, e o embarque será coordenado por equipes do corpo diplomático. “Temos um plano bem detalhado para trazer de volta todos aqueles que se sentirem ameaçados.” Segundo Viegas, não será necessário pousar no Iraque, pois já não há brasileiros no país de Sadam Hussein. Na semana passada, haviam apenas quatro, que não estariam dispostos a vir embora.

Ele disse que não se tem ainda com precisão o número de brasileiros domiciliados ou em trânsito nos países vizinhos do Iraque. “Imaginamos que não sejam muitos.” O resgate deve ser iniciado assim que houver a deflagração do conflito. “Pessoalmente, acho que começa no prazo dado pelos Estados Unidos.”

Segundo Viegas, o Brasil vai manter uma posição de neutralidade, embora não concorde com a guerra. “Defendemos sempre o sistema multilateral de decisões.” Ele descartou qualquer possibilidade de o País oferecer apoio aos Estados Unidos. “Eles também não pediram”, disse. O ministro Celso Amorim disse que cerca de 15 mil brasileiros vivem na região do Oriente Médio, que deve passar por momentos de forte instabilidade por conta do ataque iminente dos Estados Unidos ao Iraque. Do total, segundo o Itamaraty, apenas quatro vivem no Iraque. Eles optaram por ficar em Bagdá e não estão incluídos no “plano de fuga” preparado pelos Ministérios da Defesa e das Relações Exteriores para retirar os brasileiros da região. Os dois aviões da Força Aérea que vão retirar brasileiros da região do Golfo Pérsico estão de prontidão na da Base Aérea do Rio para o Cairo. A decolagem depende de aval do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

De acordo com um levantamento feito pelas embaixadas do Oriente Médio nas comunidades brasileiras da região, grande parte de seus membros não manifesta intenção, ao menos por enquanto, de deixar suas famílias mesmo em caso de guerra. Segundo a assessoria do Itamaraty, os embaixadores e as famílias de brasileiros na região já foram informados sobre o “plano de fuga”. As dez embaixadas e os consulados do País no Oriente Médio, Abu Dhabi, Amã, Ancara, Beirute, Cairo, Damasco, Kuwait, Riad, Teerã e Tel-Aviv, mantêm contatos freqüentes com as comunidades brasileiras.

Lula critica Bush e os EUA

Brasília – Numa elevação do tom das críticas que vem fazendo ao governo americano por sua anunciada intenção de invadir o Iraque, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, ao deixar o Palácio da Alvorada, que os Estados Unidos não têm o direito de decidir sozinhos o que é bom ou ruim para o mundo. Ele acusou também o presidente George W. Bush de desrespeitar a Organização das Nações Unidas (ONU). “O governo americano está transformando a guerra num problema eminentemente americano”, afirmou. “Todos nós queremos que o Iraque não tenha armas atômicas, armas de destruição em massa, que o mundo viva em paz. Agora, isso não dá o direito aos Estados Unidos de, sozinhos, decidirem o que é bom e o que é ruim para o mundo”.

Na avaliação de Lula, o pronunciamento, feito ontem pelo presidente George W. Bush em cadeia de TV, “foi muito forte” e põe em dúvida a representação da Organização das Nações Unidas. “Na minha opinião, (o pronunciamento) desrespeita a ONU, não leva em conta o Conselho de Segurança e o que pensa o restante do mundo”, afirmou Lula. “A paz é uma condição necessária para a humanidade evoluir.”