Sorocaba (AE) – Acabou a tolerância do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) com a falta de ação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em favor da reforma agrária. Depois de analisar os dados mais recentes do Incra sobre o número de famílias assentadas este ano, o movimento decidiu colocar o presidente como alvo principal das manifestações que realiza, a partir de amanhã, em todo o País. A jornada de lutas do chamado ?setembro vermelho? vai incluir marchas, atos de protesto e invasões de fazendas.

Amanhã, os sem terra e outros integrantes do Grito dos Excluídos vão à Esplanada dos Ministérios fazer um protesto no mesmo horário das comemorações oficiais do 7 de Setembro, com a presença do presidente. ?O governo Lula termina no ano que vem e os dados que temos são tão ruins quanto do período de Fernando Henrique Cardoso?, disse ontem o coordenador nacional e porta-voz do movimento João Paulo Rodrigues.

Com base em números divulgados pela Secretaria de Agricultura Familiar (SAF) do Ministério do Desenvolvimento Agrário, as lideranças concluíram que o governo assentou apenas 4 mil famílias do MST este ano. ?Se o governo trabalhar bem, vai conseguir assentar 12 mil famílias, o que representará apenas 10% do total de famílias do movimento acampadas em todo o País?, disse Rodrigues. ?É muito pouco diante do que o presidente prometeu fazer. O que vamos dizer para as mais de 100 mil famílias que não serão assentadas??

Além disso, das 500 mil famílias instaladas em assentamentos, apenas 47 mil tiveram acesso ao crédito do Pronaf este ano, segundo o porta-voz. Ele considerou que os números são uma ?provocação? aos sem terra que participaram da marcha a Brasília, em maio, quando o presidente se comprometeu a retomar os assentamentos. ?Não fizemos a marcha de graça?, disse.

Segundo Rodrigues, o ministro da Reforma Agrária, Miguel Rosseto, antigo integrante e velho companheiro do MST, também estará na mira das ações. ?Embora a responsabilidade direta seja do presidente, como ele terceirizou a reforma agrária, o ministro e os dirigentes do Incra não estão isentos das cobranças.? O coordenador nacional disse que o MST não pretende excluir dos seus quadros o líder José Rainha Júnior, que adotou uma postura independente. Sábado, Rainha reuniu 1.200 sem terra e assentados, em Mirante do Paranapanema, interior de São Paulo, num ato de desagravo ao deputado e ex-ministro José Dirceu, à revelia da direção nacional.

Grito chamará responsabilidade sobre mudanças

Aparecida (AE) – Para chamar a responsabilidade sobre as mudanças na política partidária e social às mãos dos brasileiros, o 11.º Grito dos Excluídos levará para as ruas de São Paulo e de outras cidades do País o tema ?Brasil, em nossas mãos, a mudança?. O Grito dos Excluídos é uma manifestação que reúne, em diversas regiões do Brasil, centrais sindicais, movimentos populares e eclesiais.

A tradicional marcha pela Via Dutra, que há dez anos era realizada por um grupo de integrantes do grito, neste ano, foi substituída por uma peregrinação que começou ontem, na capital paulista, será reiniciada hoje entre as paróquias e termina amanhã, feriado do Dia da Independência, com uma caminhada entre a Praça da Sé, no centro da cidade, e o Monumento do Ipiranga, na zona sul. No Ipiranga, um ato está marcado para as 10 horas de amanhã. Pelo menos 20 mil manifestantes são esperados no protesto no bairro da zona sul do município. Antes, às 7 horas, haverá uma missa na Catedral da Sé celebrada por dom Pedro Luiz Stringhini. Além de passar pelas igrejas, o grupo faz vigília nas escadarias da Sé, das 18 às 22 horas.

?Depois, vamos acampar na praça até o dia seguinte para fortalecer o ato em São Paulo?, afirmou o coordenador do movimento, padre José Aécio Cordeiro da Silva. ?Estamos cansados de ver as pessoas sofrendo porque não têm comida, nem saúde, nem emprego. Enquanto isso, os políticos vão enchendo o bolso de dinheiro.?

Segundo a coordenação do 11.º Grito, a intenção foi descentralizar a manifestação e fazer com que se espalhe. ?Fortalecer o ato em São Paulo, gritando por mais moradia, por saúde, por dignidade aos aposentados?, disse outro integrante da coordenação, Ari Alberti.

Os manifestantes levarão para as ruas o repúdio à corrupção. ?É uma convocação à sociedade para que todos cobrem dos governantes mudanças no sistema político, econômico e social do País, que, ao longo dos anos, tem produzido desigualdades e exclusões?, disse Alberti.