O governo vai reagir às críticas internacionais que apontam riscos ao meio ambiente e à produção de alimentos em conseqüência da expansão dos biocombustíveis no País. Para isso, prepara o marco regulatório para o setor. Os bancos oficiais vão adotar uma espécie de financiamento politicamente correto, isto é, não darão crédito a projetos de plantio de cana e construção de usinas fora das áreas de zoneamento econômico, socioambiental e climatológico que o governo vai criar. Um projeto de lei será enviado ao Congresso definindo quem é quem no setor e as regras para produção e uso do biodiesel.

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O governo quer estimular a produção de cana em áreas desativadas e degradadas de pecuária que, num cálculo preliminar, somam de 30 a 40 milhões de hectares. Com o zoneamento, o governo pretende identificar e delimitar as regiões de cana e outras culturas utilizadas na fabricação do biocombustível. Não serão permitidos plantios na floresta amazônica, no Pantanal e em outras áreas protegidas.

Um selo ambiental será criado. Só receberá o certificado, reconhecido internacionalmente, quem produzir o combustível de acordo com as regras do marco regulatório. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu urgência na coordenação dos trabalhos para que o projeto seja enviado logo no início de agosto, quando os parlamentares retornam do recesso. A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, teve reuniões na semana passada com representantes do setor para discutir o projeto.

Imagens de satélite serão usadas para identificar as áreas protegidas e as desfavoráveis para o plantio. Com o zoneamento, o governo também pretende controlar a eventual expansão de plantações em áreas tradicionalmente usadas para produzir alimentos.

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Na avaliação do governo, há fortes interesses econômicos por trás das críticas internacionais. ?As ONGs européias fazem essa propaganda porque, se o Brasil conseguir consolidar o biodiesel e o etanol como combustíveis de qualidade, as empresas petrolíferas vão perder?, alerta o presidente da Agência de Promoção de Exportações (Apex), Alessandro Teixeira, integrante do grupo de trabalho coordenado pela Casa Civil que prepara a política do setor. ?O segundo ponto é que os europeus não deixam os nossos alimentos entrarem nos mercados deles. Então, vamos fazer uma conversa decente.

Mitos

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Para o secretário-executivo-adjunto do Ministério da Agricultura Gerardo Fontelles, tem havido muita desinformação e criação de ?mitos? equivocados sobre o assunto, sobretudo com a difusão de notícias de que a Amazônia será tomada por plantações de cana e que lavouras de alimentos serão substituídas para atender a demanda por biocombustível. Ele destaca que as terras amazônicas não são apropriadas para a produção de cana-de-açúcar e há terras suficientes em outras áreas.

?Não vamos permitir nada que afete o equilíbrio ambiental?, diz Fontelles, que é um dos maiores especialistas do governo em crédito agrícola. O secretário ressalta que o zoneamento vai também orientar os financiamentos de projetos de construção de usinas para o processamento do combustível. ?No caso da cana, a usina deve estar instalada num raio de 20 quilômetros da produção para que haja competitividade?, diz.

Segundo o coordenador de Agroenergia do Ministério da Agricultura, Frederique Abreu, o selo ambiental será uma resposta aos países que apontam riscos para o meio ambiente e condições de trabalho com a expansão do biodiesel. ?O produtor que não tiver o selo não vai conseguir vender o seu produto?, afirma o especialista.

Para ele, também é falsa a idéia de que o programa de biodiesel ameaça a produção de alimentos. ?A competição com alimentos existe em países pequenos, que têm de optar entre alimentos e energia. No Brasil, podemos aumentar a produção sem derrubar uma árvore?. Ele lembra que menos de 1% do território nacional (7 milhões de hectares) é ocupado pela cana-de-açúcar.