O governador da Bahia, Rui Costa (PT), criticou a posição da estatal federal Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e disse que a empresa mantém uma relação de distanciamento com o governo estadual e com a população que vive na região dos municípios de Caetité e Lagoa Real, onde a INB explora uma mina de urânio a céu aberto há 15 anos.

Ao jornal “O Estado de S. Paulo”, Rui Costa disse que “não tem a menor dúvida” sobre a falta de transparência da empresa. “A INB precisa interagir mais com a comunidade e com o Estado da Bahia. Ela é uma empresa distante, que só faz tirar o mineral, e não tem nenhuma relação com o Estado da Bahia e com a sociedade local. Eu não tenho a menor dúvida disso”, afirmou o governador.

Rui Costa, que esteve nesta quinta-feira, 29, em Brasília para um encontro com o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Aroldo Cedraz, disse que o governo baiano também vai acelerar as inspeções de água na região de Lagoa Real, onde foi detectado um poço contaminado com alto teor de urânio. “Vamos aprimorar e acompanhar de perto essas medições”, afirmou.

Na semana passada, durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara, a INB foi acusada de omitir informações do governo e de órgãos de controle. O secretário de Meio Ambiente da Bahia, Eugênio Spengler, disse que o governo baiano não tem acesso a dados da empresa.

A falta de transparência também foi apontada pelo coordenador geral de transporte, mineração e obras civis do Ibama, Jônatas Trindade. Tanto o Ibama quanto o governo da Bahia e demais órgãos do governo federal só tomaram conhecimento da contaminação de urânio ocorrida em Lagoa Real a partir da reportagem publicada pelo jornal no dia 22 de agosto.

Ontem, o ministro do TCU Bruno Dantas anunciou que a Corte de contas também vai fiscalizar as operações da INB na região e acompanhar os desdobramentos do caso que têm sido tratados pelo Ibama.

Adutora

Rui Costa disse que, paralelamente, o governo baiano trabalha para estender uma adutora de água do Rio São Francisco até os municípios que estão no entorno da mina de urânio, na região de Lagoa Real. Com essa medida, disse ele, não seria mais necessário usar água de poços na região.

“Levaremos a adutora de água do São Francisco para não precisar fazer a coleta de água na região. Já chegamos com a adutora em Guanambi (município vizinho) e estamos chegando com ela agora em Caetité para atender os municípios da região. Ela terá água do São Francisco, sem precisar pegar água do subsolo”, disse Rui Costa.

No mês passado, o governo baiano anunciou que quer usar recursos de uma operação de crédito firmada com o Banco Mundial (Bird) para iniciar o programa de monitoramento de águas profundas na região de Lagoa Real e Caetité. Um termo de referência para oficializar o pedido será encaminhado ao Bird.

O plano é utilizar recursos de um acordo firmado ainda em 2012 entre o governo baiano e o Banco Mundial, o qual prevê, entre outras ações, que o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), órgão do governo da Bahia responsável pela gestão de águas no Estado, receba US$ 12,8 milhões para programas ligados à água. O projeto de monitoramento deverá custar US$ 1 milhão, o equivalente a R$ 3,9 milhões, e dará início ao programa de fiscalização das águas profundas na região.

A medida faz parte das mobilizações do governo baiano, que tenta dar uma resposta às denúncias de contaminação de água por urânio. No início deste mês, o Inema confirmou a presença de alto teor de urânio em um poço da zona rural de Lagoa Real, no sudoeste do Estado, em volume quatro vezes acima do limite tolerado para o consumo humano.

O governo anunciou que vai instalar uma Unidade de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon) em Caetité. Segundo a Secretaria de Saúde da Bahia, quando o plano passou a ser desenhado, em 2012, dados já apontavam que havia um volume de pessoas com câncer superior à média de toda Bahia.