Moradora da Mangueira – o morro da zona norte do Rio conhecido por seus gênios do samba e pelo histórico de violência -, Leonor (*) tem três filhas, de 13, 9 e 4 anos. Depois de “um bom tempo” de tranquilidade, que veio com a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em novembro de 2011, a dona de casa agora se sente tão temerosa quanto frustrada. O anúncio, feito pela Secretaria de Segurança Pública no dia 22, de que o efetivo do programa será reduzido em um terço, para reforço do patrulhamento em ruas “do asfalto”, chega depois do retorno dos confrontos dos policiais com traficantes da favela.

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“Minha caçula está conhecendo o que é tiro agora. Fica muito assustada, se esconde, tenta abafar o barulho para não ouvir”, lamenta Leonor, com a menina no colo. Ela já cogita se mudar para o interior do Estado, onde tem parentes. “Os tiros voltaram para a Mangueira há um ano mais ou menos. Agora vai piorar ainda mais. O governo está dizendo: ‘Olha, a UPP não deu certo, então acabou, vamos embora. Você se vira aí’. Isso é abandono.”

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A apreensão, misturada à decepção de ver ruir um programa que, ao menos em parte, e por um determinado período, teve resultados significativos na redução dos embates armados, é compartilhada pelo atendente de farmácia Robson. Ele mora há 20 anos no Morro Dona Marta, na zona sul, cuja unidade, a primeira, considerada modelo, completa dez anos em dezembro de 2018.

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A filha de Robson, Julia, de 8 anos, faz parte da “geração UPP”: nasceu e vinha crescendo em uma favela sem tiroteios. Tanto ele quanto Leonor pediram para não terem a identidade publicada. Eles temem represálias – e não sabem de que lado poderia vir. “Se a UPP sair, vai ser um desastre. Minha filha foi criada na paz. Agora tem tiro, e eu tento despistar, digo ‘já vai passar’”, conta Robson, resignado. “Isso muda a infância. Ela passa a conviver com o medo, como era quando eu era pequeno. Como pai, fico sem chão. Mas acho que vão manter (o programa) pelo menos aqui na zona sul, que é vitrine.”

Robson e os vizinhos já restringem seus percursos na favela há cerca de um ano, desde que traficantes, no passado intimidados, passaram a afrontar os integrantes da UPP. Recentemente, um deles repousou um fuzil na estátua de Michael Jackson, lembrança da passagem do cantor pela favela, em 1996, e um ponto turístico pós-UPP.

A foto da “brincadeira” viralizou e foi vista como um símbolo do colapso do programa, vendido pelo então governador Sergio Cabral Filho (PMDB) como a solução para o fim do “poder paralelo” do tráfico em favelas. O pressuposto era a reversão da animosidade entre a PM e moradores, o que considerava a entrada de projetos sociais. A algumas localidades, eles chegaram; outras nunca os viram como prometido. Acusado de chefiar um grande esquema de corrupção, o que nega, Cabral está preso há nove meses.

Bem-sucedido em lugares como a Vila Cruzeiro, na zona norte (um terço a menos de assassinatos de 2011, um ano antes da UPP, até 2015), não vingou em outros, como a Vila Kennedy, na zona oeste (este crime quase triplicou de 2014, quando a UPP foi criada, a 2015). A divulgação dos dados está defasada em um ano e meio, o que impede comparações com 2016 e o primeiro semestre de 2017.

A mudança está ligada à explosão dos índices de criminalidade no Estado – a chamada letalidade violenta (como homicídios dolosos e roubos seguidos de morte), que cresceu 26% nos últimos seis anos. Essa situação, segundo o secretário da Segurança Roberto Sá, leva a um incremento de PMs nas ruas.

Prazo – Como não há como contratar novos policiais, diante da crise financeira do governo, a solução encontrada foi queimar “a gordura” das UPPs. A secretaria nega que as unidades vão ser extintas. Alegando tratar-se de “questão estratégica”, a PM mantém sigilo sobre o processo de transferência dos contingentes, que deve terminar em “no máximo 45 dias”. (Roberta Pennafort)

(*) OS NOMES DOS PERSONAGENS DESTA REPORTAGEM FORAM ALTERADOS, POR MEDIDA DE SEGURANÇA.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.