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Lula: acadêmicos estrangeiros
acreditaram nele.

Rio – A crise já é percebida, nos Estados Unidos, como demonstração de falta de habilidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ela reforça os antigos estereótipos americanos sobre a América Latina, num momento em que a política externa brasileira tenta ganhar peso e altura, e é, também, motivo de decepção por parte de expoentes da nova geração de brasilianistas, os acadêmicos que se dedicam, principalmente nos Estados Unidos, a estudar passado e presente do país.

Grande parte da academia americana torceu pela vitória de Lula em 2002, observa James Naylor Green, professor do Departamento de História da Universidade Brown e ex-presidente da Associação de Estudos Brasileiros, entidade que congrega pesquisadores americanos e brasileiros. ?Também noto muita decepção entre os intelectuais brasileiros?, disse Green.

Hoje, diante não só da crise desencadeada nos Correios e pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), mas da política do governo federal como um todo, tudo pode se nivelar com maus momentos do passado, até no nível anedótico: ?Não me sinto a par de oferecer um comentário bem-informado. Mas, pelo que estou lendo, não vejo crise nenhuma. Esse festival está rolando desde os tempos da Tia Zulmira, e só não viu quem não quis?, disse, por e-mail, o professor Bryan McCann, do Departamento de História da Universidade de Georgetown, citando o personagem Tia Zulmira, criado pelo humorista Stanislaw Ponte Preta.

Para Todd Diacon, diretor do Departamento de História da Universidade do Tennessee, acusações de corrupção na política brasileira renovam a atitude descrente de certos setores da vida americana, postura que ele considera injusta. Mas, numa esfera mais ampla, as acusações afetam a imagem de Lula no exterior: ?Os americanos são especialistas em criticar o problema dos outros, enquanto ignoram problemas similares em casa. Mesmo assim, acusações de corrupção, de compra de votos no Brasil, tiram das pessoas nos Estados Unidos a resposta: ?Sei, e o que mais é novidade??.

Diacon acha que o escândalo pode afetar o prestígio externo de Lula: ?Senti que o papel do Brasil como um ator importante no cenário mundial, como uma voz bem-pensada em prol da moderação e da justiça social na América Latina, estava crescendo. Um escândalo como esse pode descarrilhar esse prestígio crescente?. Para James Naylor Green, a percepção de falta de rumo é perceptível igualmente na política interna. Sendo ele mesmo um acadêmico petista, Green se diz decepcionado: ?O PT tinha discurso diferente da política dominante no Brasil desde o século XIX. Boa parte dos brasilianistas está decepcionada?, disse ele.

Não que acadêmicos tenham esperado que as reformas brasileiras ?avançassem a mil quilômetros por hora?, salienta o professor Green. Porém a dificuldade de avançar, mesmo em baixa velocidade, é algo que não esperavam: ?Queremos que o Brasil avance. Lula foi eleito com 90%, 95% de apoio dos acadêmicos americanos. Mas não era para o governo do PT evitar a CPI dos Correios, por exemplo. Fica parecendo que eles vão fazer a mesma coisa que os outros governos fizeram em termos de fisiologismo?.

Já Jeffrey Lesser, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade Emory, tem uma visão ponderada. Crises são parte da democracia, diz ele, e esta fica, enquanto aquelas passam: ?O que acontece é que Lula foi eleito com uma expectativa muito alta. Então há uma cobrança maior. Mas a democracia brasileira é muito forte, como ficou claro com a pior das crises, que foi o processo de impeachment do presidente Fernando Collor?.