Altamira – O fazendeiro Vitalmiro Matos de Moura, o Bida, indiciado como mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang, morta dia 12 de fevereiro em Anapu (PA), mandou ontem um recado à Polícia Federal. Ele está disposto a se entregar se o processo for transferido da Justiça Estadual para a Justiça Federal. A mensagem foi levada ao superintendente da PF no Estado, José Ferreira Sales, por um jornalista de Belém que manteve contato com um intermediário do fazendeiro. Segundo o recado, Bida se sentirá mais seguro se for julgado na instância federal, onde teoricamente, haveria menor ingerência política e o fazendeiro teria maiores chances de se livrar da acusação ou receber uma pena menor do que a pedida no indiciamento.
Nos relatórios das polícias Federal e Civil, Bida foi indiciado por co-participação em homicídio doloso qualificado. A pena prevista para este crime varia de 12 a 28 anos de cadeia.
?Recebemos a mensagem por um jornalista e estamos negociando com os advogados para verificar estas informações e em que condições ele quer se entregar?, disse o superintendente da PF, que omitiu o nome do jornalista. Sales esteve ontem em Altamira, Anapu, Pacajás e Parauapebas acompanhando o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Instituicional (GSI) da presidência da República, general Jorge Armando Félix.
O superintendente da PF disse ainda que Vitalmiro estaria contratando um advogado de Belém para negociar a sua rendição. ?O advogado contratado em Altamira é apenas um preposto deste novo escritório da capital?, comentou Sales. O advogado Antônio Septímio – que se apresentou como defensor do fazendeiro Bida no dia da prisão de Amair Feijoli da Cunha, o Tato, acusado de ser o contratante de Rayfran Sales, que confessou o assassinato, e Clodoaldo Batista – disse desconhecer o recado do seu cliente e duvidar de que a informação seja verdadeira.
Antônio Septímio admitiu, no entanto, que a transferência do caso para a instância federal é uma boa alternativa para Vitalmiro. O advogado também teme que o julgamento na esfera estadual seja contaminado pela repercussão do caso e isto influencie os juizes nas decisões. O advogado já está preparando a defesa do fazendeiro, alegando que não há provas documentais, nem mesmo testemunhais contra Bida. ?Não há nada nos relatórios feitos pelas polícias Civil e Federal que aponte para a participação do meu cliente no crime. Só vi insinuações sem fundamento feitas por Rayfran e Clodoaldo?, disse Septímio.
O delegado que presidiu o inquérito na esfera federal, Ualame Machado, disse que a tendência é o processo continuar na esfera estadual de Justiça. ?Esta proposta significa que ele não vai se entregar. Vamos prendê-lo antes?, prometeu. O delegado Machado contou que recebe pelo menos cinco informações por dia sobre o paradeiro de Bida.
Pistoleiros transferidos para Belém
Belém – Os três presos acusados de envolvimento no assassinato da missionária Dorothy Stang, em Anapu, foram transferidos ontem à tarde de Altamira para o Complexo Penitenciário de Americano, em Santa Izabel do Pará, Região Metropolitana de Belém.
O capataz Amair Feijoli da Cunha, o ?Tato?; e os pistoleiros Rayfran das Neves Sales, o ?Fogoió?; e Clodoaldo Carlos Batista, o ?Eduardo?, foram indiciados no início desta semana por homicídio qualificado, com pena de 12 a 30 anos de prisão.
As polícias Civil e Federal procuram o fazendeiro Vitalmiro Matos de Moura, o Bida, acusado de ser o mandante do crime. O governo estadual cedeu um avião para levar os três presos até a capital paraense. Os três envolvidos na morte da religiosa chegaram a Belém por volta de 16h30.
Durante o período em que esteve preso em Altamira, no centro-oeste do Estado, Amair Feijoli da Cunha preferiu o silêncio. Em depoimentos às polícias Civil e Federal ele negou ter contratado os pistoleiros para matar Dorothy Stang e planejar o crime com Bida. Já Rayfran e Clodoaldo apresentaram várias versões sobre o assassinato nos depoimentos às polícias.
Para os senadores da Comissão Externa do Senado, que acompanha o caso, na segunda-feira, em Altamira, Rayfran e Clodoaldo chegaram a mencionar o nome do prefeito de Anapu, Luiz dos Reis Carvalho (PTB), como um dos que ajudariam a pagar as custas com os advogados se os envolvidos no crime fossem presos. Por isso, a Polícia Civil os ouviu novamente na terça. Os dois confirmaram ao delegado Waldir Freire que Bida teria dito que o prefeito iria ajudar na ?vaquinha? para pagar um advogado de R$ 100 mil.


