FAB admite que controladores monitoravam mais de 14 aviões

Foto: Luiz Alves/ABr
Waldir Pires (esq.) e Luiz Carlos Bueno (dir.): audiência na Câmara para explicar apagão aéreo.

Brasília (AE) – O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Luiz Carlos Bueno, admitiu ontem que alguns controladores de vôo trabalhavam com mais de 14 aviões na sua tela de monitoramento de controle antes do acidente com o Boeing da Gol e o jato Legacy, em 29 de setembro, que causou a morte de 154 pessoas, no Mato Grosso.

Segundo ele, isso ocorria não por uma orientação do comando, mas porque alguns profissionais que se consideravam mais experientes optavam por monitorar mais aviões para dar um maior fluxo ao tráfego aéreo. ?Nunca pedimos que os controladores monitorassem mais de 14 aviões?, disse ele na audiência pública conjunta das comissões de Defesa do Consumidor e Defesa Nacional da Câmara.

Bueno afirmou aos deputados que não existe nenhuma ameaça dos controladores de vôo de fazerem greve às vésperas do feriado de final de ano. Neste momento, o deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) reagiu afirmando: ?Quero ouvir isto dos controladores?. Bueno retomou a palavra e disse que falava em nome dos controladores militares.

Sindicato nega

O presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Proteção ao Vôo, Jorge Botelho, negou que os controladores de vôo estejam planejando ?uma greve-branca, ou operação-padrão? para as vésperas do período de feriados de fim do ano. Botelho, que participa de audiência pública conjunta das comissões de Defesa do Consumidor e de Defesa Nacional, na Câmara dos Deputados, afirmou que, nessa época do ano, ?poderá haver um acúmulo no tráfego aéreo? por causa do aumento de viagens de turismo e de férias, mas afirmou que isso é um situação habitual nessa época do ano. ?Não há qualquer planejamento de nós, controladores, para fazer uma greve-branca ou qualquer outra atitude que prejudique a aviação?, disse o presidente do sindicato dos controladores.

Ele acrescentou que a categoria reivindica uma reestruturação completa do sistema de controle de tráfego aéreo no País e, nesse contexto, os profissionais querem a criação de uma carreira. ?Os problemas que estamos vendo na nossa categoria já aconteciam muito antes do trágico acidente com o Boeing da Gol, mas este acidente foi para nós um divisor de águas?, disse Botelho.

PF aponta imperícia de pilotos do Legacy

São Paulo (AE) – Diálogos revelados a partir da transcrição da caixa-preta do jato Legacy confirmam que a conduta dos pilotos norte-americanos Joseph Lepore e Jan Palladino provocou a colisão com o Boeing da Gol. O relatório parcial da Polícia Federal deve mostrar que os pilotos agiram com imperícia, conforme mostram trechos dos diálogos travados antes e depois do acidente, que resultou na morte de 154 pessoas em 29 de setembro.

Eles teriam percebido o desligamento do transponder (equipamento que permite comunicação precisa com radares), por exemplo, somente após o choque. A PF já indiciou Lepore e Palladino na semana passada por entender que a dupla cometeu o crime de expor a perigo a aeronave, na modalidade culposa (sem intenção de matar) agravada por morte. Mantida sob sigilo, a transcrição – traduzida do inglês para o português – das gravações da caixa-preta do Legacy é considerada esclarecedora pela polícia, especialmente quando confrontada com dados técnicos registrados pelos controladores de vôo.

Para indiciar os pilotos, o delegado Ramon Almeida da Silva elencou, em seu despacho, 23 argumentos. Responsável pelo inquérito que apura a conduta específica dos pilotos, Almeida não descarta a possibilidade de outros indiciamentos. Ele entregou relatório parcial ontem ao juiz Charles Renaud Frazão de Moraes, de Sinop (MT).

O delegado pedirá a prorrogação do prazo para conclusão do inquérito. Almeida pedirá também que o juiz do caso decida se a PF tem competência para indiciar os controladores envolvidos no caso, todos militares, ou se deve remeter os autos para a Justiça Militar. Até agora, já estão indiciados os pilotos do Legacy, que são civis. Eles são acusados de colocar em risco a segurança do tráfego aéreo, com os agravantes de destruição da aeronave e das mortes. Mas o relatório atribuirá maior cota de responsabilidade pelo acidente aos sucessivos erros cometidos pelas torres de controle do tráfego aéreo de Brasília e de São José dos Campos, de onde partiu o jato, rumo aos Estados Unidos.

Waldir Pires nega recursos contingenciados

Brasília (AE) – O ministro da Defesa, Waldir Pires, voltou a negar ontem que tenha havido contingenciamento de verba para o setor aéreo nos últimos quatro anos. Sem citar diretamente o relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), em que o relator, Augusto Nardes, culpou o governo pela crise aérea por causa do corte no repasse de verbas, Pires classificou a notícia de ?inaceitável?. ?No exercício de 2006 não houve nenhum centavo de contingenciamento e em 2005 esse contingenciamento foi inexpressivo, assim como em 2004 e 2003?, disse Waldir Pires, na audiência pública das comissões de Defesa do Consumidor e de Defesa Nacional da Câmara.

Também sem citar Nardes, Pires voltou a classificar de ?antiético? o comportamento do ministro do Tribunal de Contas, que em entrevista na segunda-feira relatou que Pires teria dito que os passageiros teriam de rezar para não terem nenhum problema com os vôos nas festas de fim de ano.

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