O governador de São Paulo na época dos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) Claudio Lembo (ex-PFL) nega que o Estado tenha feito acordo com o crime organizado, mas admite que o encontro da advogada Iracema Vasciaveo com Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, contribuiu para o fim das ações da facção.

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Lembo, junto com a cúpula da Segurança Pública e da Administração Penitenciária, acompanhou todas as decisões de enfrentamento contra o PCC. No começo da tarde de domingo, dia 14 de maio de 2006, São Paulo já registrava dezenas de policiais assassinados e outra dezena de ataques contra delegacias e batalhões. Ele lembra que recebeu uma ligação do comandante-geral da Polícia Militar, coronel Eliseu Eclair Teixeira Borges, que tinha uma proposta da advogada Iracema.

“Ele disse que a advogada queria ver o Marcola, se certificar que ele estava bem fisicamente, que não havia sido torturado. E que isso poderia ajudar a encerrar os ataques. Eu não vi problema e autorizei a viagem dela e dos demais no avião da Polícia Militar”, contou.

O então governador justificou que cedeu a aeronave oficial porque a situação era atípica e precisava de ações rápidas. “Era uma possibilidade de encerrar aqueles motins, por isso autorizei. E autorizaria de novo, se fosse o caso.”

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Sobre o fato de o detento Luis Henrique Soares, o “LH”, ter dado a ordem a um outro bandido para encerrar os ataques pelo celular levado pela advogada, Lembo diz que não sabia desse episódio. “Eu apenas autorizei a viagem. O que aconteceu lá dentro, não tenho detalhes.” Sobre os bloqueadores de celular no Presídio de Presidente Bernardes, o ex-governador afirma que não pode garantir se funcionavam na época dos ataques. “Eu nunca estive no presídio para constatar esse funcionamento. Me informaram que sim (funcionavam).”

Bastidores. O então secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, preferiu não dar entrevista. Mas disse que também não poderia confirmar se os bloqueadores de celular funcionavam perfeitamente naquela época.

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Ele lançou um livro recentemente, em que conta bastidores da cúpula do governo durante os ataques de maio de 2006. Na edição, afirma que a proposta inicial de Marcola, ainda na madrugada de sexta-feira (dia 12) para sábado, para encerrar os ataques era ter a autorização do governo do Estado para que os presos em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) recebessem visitas no Dia das Mães e pudessem conversar imediatamente com seus advogados. Segundo Furukawa, com exceção dele, toda a cúpula da Segurança queria aceitar o acordo. Só depois, o secretário de Segurança na época, Saulo de Castro Abreu Filho mudou de ideia e mandou os policiais enfrentarem o PCC nas ruas. O pedido de Marcola foi negado.

O Estado fez vários pedidos de entrevista para Saulo Abreu Filho, atualmente na Casa Civil, mas ele preferiu não falar.

Perigoso

Para o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, o Estado reconheceu em Marcola um representante da facção criminosa com quem poderia dialogar. “Isso é o mais perigoso, porque quando você empresta esse reconhecimento, você não consegue tirar mais. Você passa a ter um ator dentro dessa sistemática de segurança pública, que é uma liderança dentro de uma organização criminosa, e isso é perigoso.”

Ele concorda que os ataques diminuíram até cessar depois da conversa entre Marcola e a advogada. “A questão é se esse tipo de contato entre o Estado e uma organização criminosa é benéfico ou não. Isso é questionável.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.