Florestas de eucalipto e canaviais ocuparam pastagens de gado e matas da Serra das Maravilhas, que separa João Pinheiro, antiga Alegres, de Brasilândia, no noroeste mineiro. É lá que em Grande Sertão: Veredas nasce o jagunço Riobaldo.

continua após a publicidade

Quando Guimarães Rosa escreveu o livro, as montanhas da região pertenciam à Fazenda das Maravilhas, cujos limites atingiam praticamente todas as margens do Rio Verde, hoje um filete de água escura por onde deságuam filetes ainda menores vindos de veredas quase secas.

continua após a publicidade

A fazenda pertencia a Geminiano Lemos do Prado, que fez fortuna no começo do século 20. Se fosse real, Riobaldo, criado pela mãe e “órfão de conhecença e de papéis” de pai, certamente teria sido um agregado ou vaqueiro de Geminiano. É que a propriedade ocupava praticamente toda a área, do sopé da Serra das Maravilhas ao sopé da Serra dos Alegres, ponto que Rosa assinalou como local de nascimento do personagem.

continua após a publicidade

A história da família Lemos do Prado é um retrato do produtor de Minas Gerais e dos impactos de decisões governamentais e ciclos econômicos no último século. Na década de 1940, Geminiano morreu influente politicamente – subdelegado de polícia e fazendeiro. Os filhos tocaram a grande propriedade, que tinha dezenas de vaqueiros, até os anos 1970, quando o governo federal incentivou a destruição do cerrado para alimentar caldeiras do Brasil Grande. Nas duas décadas seguintes, o ciclo de carvoarias deixaria cicatrizes profundas na região, com assoreamento de córregos, aterramento de buritizais e destruição das árvores retorcidas. Quando o cerrado acabou, as carvoeiras foram embora e com elas fontes de água, vegetação nativa e qualquer perspectiva da família para garantir que a terra voltasse a dar renda.

Sem tecnologia para acompanhar a nova dinâmica da pecuária e da agricultura que floresceu nos anos 1990, os netos de Geminiano se juntaram à leva de agregados que migraram para cidades em busca de emprego. A Fazenda das Maravilhas começou a ser dividida e vendida a produtores que passaram a produzir eucalipto sem técnicas de manejo ou para grandes grupos que se instalaram para cultivar grandes áreas irrigadas. Os pequenos não tinham crédito para implantar canais e pivôs e aproveitar as águas do rio. Hoje, os bisnetos de Geminiano são mototaxistas, vendedores e diaristas em cidades mineiras e de outros Estados.

Pecuaristas de João Pinheiro estão em pé de guerra com o eucalipto. “João Pinheiro é o município de maior extensão de Minas. Tínhamos um rebanho de 400 mil cabeças. Aí entrou o eucalipto e acabou com 50% da pecuária”, afirma Geraldo Porto. Presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de João Pinheiro, ele diz que a opção por eucalipto – que em suas contas ocupa 600 mil hectares no município – se mostrou um “problema”, especialmente agora que a produção das siderurgias, que consomem carvão, está em baixa. A seca que assola a região há três anos foi outro fator para o êxodo rural e a falta de água dos córregos e veredas, assim como a dificuldade de crédito agrícola e a alta dos juros. “Acabou a pecuária e não tem lavoura irrigada (na Serra das Maravilhas)”, diz, referindo-se especialmente aos pequenos proprietários. “Sem pecuária, o povo foi para a cidade procurar emprego. O que está nos salvando mais ou menos é a cana, que tem cinco usinas com irrigação de cotejamento.”

Para Adriana Maugeri, da Associação Mineira de Silvicultura, a versão de que o eucalipto seca a terra é mito. Ela estima que as 19 grandes empresas do setor no Estado têm 1,4 milhão de hectares de floresta plantada e 530 mil hectares de cerrado preservado, além de áreas de proteção permanente em altos de morro e beiras de rio. O gargalo estaria nas propriedades menores. “A fiscalização precisa ser mais abrangente.”

Soja cerca parque grande sertão veredas

A sede de Chapada Gaúcha (MG) tem ruas largas, planejadas. São poucos moradores, cerca de 10 mil, e muita poeira, especialmente nas estradas de acesso à cidade, por onde trafegam caminhões que transportam grãos. As margens das rodovias que cortam a área plana dos Gerais são tomadas de soja.

Há pouca gente nas ruas, nas estradas. Uma paisagem diferente da vista pelo bando de Zé Bebelo e Riobaldo, que pela região passou a caminho do Sussuarão, na Bahia. Os jagunços só encontraram “almas vivas” na Serra das Araras, hoje um distrito de Chapada Gaúcha. “Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras – revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além, aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia”, narrou Riobaldo. Foi ali que, sem Diadorim saber, o jagunço ficou com a meretriz Nhorinhá. “Eu nem tinha começado a conversar com aquela moça, e a poeira forte que deu no ar ajuntou nós dois, num grosso rojo avermelhado.”

É em Chapada Gaúcha que está o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, de 231 mil hectares, administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Embora o maior parque do cerrado brasileiro esteja demarcado, ambientalistas temem que transgênicos e agrotóxicos usados nos plantios de soja cheguem até os limites do parque. Aí começa a região do Matopiba, fronteira agrícola que se expande para o oeste baiano e os cerrados de Piauí, Maranhão e Tocantins.

A delimitação do parque, em 1989, não chegou às terras ocupadas pelos gaúchos desde os anos 1970, mas incluiu lotes de moradores antigos, como os Paçocas. O clã está no sertão há mais de um século e sofre com uma indefinição. Eles continuam nas terras à espera de indenização do governo. Enquanto isso, não podem fazer melhorias na propriedade nem investimentos mais robustos na plantação e na criação de animais.

Antonio Teixeira de Almeida, o Tonico Paçoca, conta que o medo é ter de ir para a cidade. “Na cidade grande, o aperto tá demais. Tá tudo feio, cheio demais. Foi o tempo que se dizia: ‘Vai pra cidade com os meninos’. Hoje, não é isso, não”, afirma. “Já andei por Brasília, mas daqui não saio.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.