Setores da esquerda do PT prometem protestar internamente se o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, escolher um nome vinculado “direta ou indiretamente” à atual equipe econômica para comandar o Banco Central, como é o caso do economista Pedro Bodin de Moraes, presidente do Banco Icatu e amigo de Armínio Fraga. À frente desta reação está, entre outros, a senadora Heloísa Helena (PT-AL), que afirma que a nomeação de alguém do perfil dos que estão sendo cotados para o cargo não seria bem aceita por boa parte dos petistas.

“Além da turbulência de mercado, poderia haver uma turbulência interna, que não interessa a ninguém”, ameaçou hoje a senadora. A petista pediu a técnicos conhecidos do BC um relato sobre o currículo de alguns nomes que têm aparecido nos jornais e que já fizeram parte da diretoria da instituição, como Bodin, que foi diretor de Política Monetária durante o governo Collor.

Embora prefira não falar individualmente dos nomes, Heloísa Helena considera um equívoco colocar no Banco Central qualquer economista ligado ao “grupo que conduziu a política econômica” nos últimos anos. “Ninguém até agora teve a ousadia de propor nas instâncias partidárias a manutenção de alguém vinculado a esse grupo. Não acredito que isso possa acontecer.” Na reunião do diretório nacional do próximo final de semana, a condução do Ministério da Fazenda e do BC também deverá ser foco de polêmica.

A deputada eleita do Rio Grande do Sul, Luciana Genro, por exemplo, quer explicações do porquê de o coordenador da equipe de transição, Antônio Palocci, receber tantos elogios dos representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) que estiveram recentemente no País. “O que ele falou para provocar tanto elogio do FMI?”, questiona a petista. Ela também critica a preferência da cúpula do PT por ter alguém ligado ao mercado financeiro ou até mesmo à equipe de Fernando Henrique Cardoso para presidir o BC.

“Não tem sentido ter alguém ligado à atual equipe econômica, porque o povo não votou em uma fotocópia, o povo quer mudança real da economia.” Apesar dessas críticas, a maior parte da chamada esquerda do PT deve permanecer silenciosa e aceitar as escolhas de Lula para tranqüilizar o mercado. Uma das correntes radicais, a Articulação de Esquerda, por exemplo, realizou um encontro no último final de semana e decidiu “não tensionar o governo neste momento” devido às dificuldades econômicas.

Além das polêmicas internas, Lula também enfrenta problemas de outra natureza para encontrar nomes para o BC, como a existência de poucas alternativas. Reservadamente, dirigentes do PT próximos a Lula admitem que Bodin é um dos nomes cogitados para assumir a presidência do BC, mas negam a versão de que ele não teria aceito a indicação quando sondado. “O Lula não convidaria alguém para não aceitar”, diz um membro da executiva nacional.

Segundo o líder do PT na Câmara, João Paulo Cunha (SP), um convite do presidente da República para presidir o Banco Central é irrecusável. Ele lembra que Armínio Fraga deixou um importante cargo de consultoria junto ao megaespeculador George Soros para assumir o BC, em 1999.