Brasília (AE) – Delúbio Soares, a quem o presidente Lula atribuiu o ?enterro do PT?, assumiu em julho de 2004, em documento de 9 linhas, ?compromisso irretratável e irrevogável de garantir, como avalista e devedor solidário? todas as operações de empréstimos firmadas pelo BMG com as empresas de Marcos Valério Fernandes de Souza – suposto condutor do mensalão -, e com o próprio Partido dos Trabalhadores. Sobre a origem dos empréstimos, Valério revelou que o ex-ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, deu aval político. Ele destacou que Delúbio o informou que Dirceu ?teve reuniões com os dirigentes dos bancos? no momento em que os financiamentos eram negociados.

continua após a publicidade

Cópia do documento de Delúbio foi entregue na noite de terça por Marcos Valério ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, que conduz a apuração sobre o esquema de mesadas no Congresso.

Os investigadores avaliam o compromisso do ex-tesoureiro do PT como revelador porque mostra que o partido também ajudou Valério. Isso altera a versão construída por Delúbio desde que as relações do partido com Valério se tornaram públicas. A CPI Mista dos Correios trabalhava na linha de que o empresário é quem tinha atuado exclusivamente como avalista de empréstimos que o PT tomou. Com a nova versão, Valério procura assegurar o recebimento dos valores que já bancou porque o PT ameaçou não pagar aquilo que Delúbio executou sem anuência do diretório nacional.

Delúbio assina como pessoa física o documento – sem autenticação em cartório -, que o coloca como avalista de financiamentos que chegam a R$ 121 milhões, soma dos negócios firmados pelas empresas de Valério e pelo PT junto ao BMG e também ao Banco Rural. Os valores relativos aos empréstimos tomados pelas empresas de Valério foram repassados ao PT.

continua após a publicidade

O patrimônio pessoal do ex-tesoureiro se resume a um saldo bancário de R$ 163 mil, segundo ele declarou à Polícia Federal. Para procuradores federais, o BMG só aceitaria Delúbio como avalista de Valério e do PT se tivesse certeza de que ele possui uma fortuna, bens móveis e imóveis suficientes para cobrir a totalidade dos empréstimos.

Eles também consideram intrigante o fato de que é genérica a declaração encaminhada à direção do BMG – sem especificações acerca das transações. O compromisso contempla ?todas as operações? contraídas pela SMPB Comunicação Ltda, DNA Propaganda e Graffiti Participações. A SMPB e a Graffiti tomaram R$ 83,4 milhões ao BMG entre fevereiro de 2003 e abril de 2004.

continua após a publicidade

Delúbio também banca as operações do PT e do escritório Rogério Lanza Tolentino & Associados Ltda, que pegou outros

R$ 10 milhões do BMG. Tolentino é sócio de Valério.

Valério declarou que, a pedido de Delúbio, foi ao BMG e ao Rural tomar os empréstimos. ?Em alguns deles foram oferecidos como garantia créditos relativos a contratos de publicidade com o governo federal. Após sucessivas renovações fui pressionado pelos bancos a saldar as dívidas, ocasião em que apresentei um documento firmado por Delúbio e entregue ao BMG.? Segundo ele, documento com o mesmo teor foi entregue ao Rural. ?A partir daí os bancos passaram a ter conhecimento oficial da natureza e finalidade dos empréstimos.?

SMP&B Comunicação demite funcionários

Belo Horizonte (AE) – A agência de publicidade SMP&B Comunicação, do empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, anunciou ontem que promoverá um corte de 35% nos custos. A medida tomada pelos sócios-administradores da agência, inclui a demissão de funcionários. Os sócios da agência DNA Propaganda, também de Valério, passaram a tarde reunidos para analisar a situação da empresa.

De acordo com uma nota divulgada ontem pela SMP&B, a agência reduzirá os dispêndios operacionais e também a folha de pagamento.

A empresa, no entanto, não quis informar quantos dos 67 funcionários da sede, em Belo Horizonte, e dos 27 da filial de Brasília serão demitidos. Haverá cortes em todos os setores, até mesmo na diretoria.

A diretora-financeira, Simone Vasconcellos, que disse à CPI Mista dos Correios, na quarta-feira, estar demissionária, fica no cargo por enquanto, mas pelo menos um dos diretores de Planejamento da agência foi dispensado.

A SMP&B informou que os cortes passarão também por outras áreas técnicas, como mídia e administração. A estratégia começou a ser traçada pela empresa por causa da suspensão de contratos com órgãos governamentais, após o escândalo do envolvimento de Valério com o PT. O principal contrato perdido é o dos Correios, cujo orçamento, de cerca de R$ 90 milhões, era dividido pela SMP&B entre duas outras agências. A empresa também perdeu contratos com o Ministério do Trabalho e o governo de Minas Gerais.

A DNA também enfrenta dificuldades, com a suspensão de contratos com as Centrais Elétricas do Norte do Brasil (R$ 12 milhões), Ministério do Trabalho (R$ 15 milhões) e Banco do Brasil (R$ 200 milhões, divididos com outras duas agências). A empresa também perdeu as contas da Secretaria de Comunicação de Minas Gerais, que havia contratado a DNA para prestar serviços de comunicação às secretarias de Saúde e de Meio Ambiente. O contrato era de R$ 3,6 milhões.

A DNA informou que os sócios de Valério na empresa, Margareth Freitas e Francisco Castilho Santos, passaram a tarde de ontem reunidos para avaliar o impacto do escândalo na saúde financeira da agência, mas ainda não decidiram sobre cortes na sede, na capital mineira. O aluguel das salas ocupadas pela agência num edifício do centro da cidade, que pertencem à Companhia de Tecidos Norte de Minas (Coteminas), do vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, está atrasado há um mês. Na filial de Brasília, o número de funcionários foi reduzido de 39 para apenas cinco.

O advogado de Valério, Rogério Tolentino, confirmou que as empresas dele terão de passar por um processo de ?enxugamento?, mas ressaltou que a medida só será necessária para as atingidas pela suspensão de contratos. Entre as 13 empresas de Valério, o advogado cita o Centro de Preparação Eqüestre (Cepel) e o próprio escritório de assessoria empresarial, a Tolentino e Melo (que também tem o empresário como sócio), como exemplos de empresas que preservam solidez.

?Na minha empresa, não houve impacto. Ela é alheia às empresas que têm atividades com estatais. Tem apenas uma secretária?, disse Tolentino.

Segundo o advogado, Valério ainda não pensa em recorrer à Justiça para revalidar os contratos cancelados.