Crise ameaça petistas no 2.º turno

Brasília (AG) – O ressentimento, a desconfiança e o clima de beligerância tomaram conta dos partidos da base política do governo Lula no segundo turno das eleições municipais.

Os candidatos petistas não conseguem ampliar apoios em muitas capitais, apesar da pressão da cúpula do PT e de integrantes do governo. O aliados PMDB e PPS se rebelaram e estão optando por candidaturas de oposição em diversas das 44 cidades que terão segundo turno dia 31.

O PMDB do governador Germano Rigotto, no Rio Grande do Sul, decidiu apoiar o candidato do PPS, José Fogaça, em Porto Alegre, que ameaça o reinado de 16 anos do PT na prefeitura. Os peemedebistas também estão contra os petistas no segundo turno em Caxias do Sul e Pelotas. O PMDB está se posicionando contra os petistas também em Vitória e Porto Velho e se declarou neutro em São Paulo, o que favorece, teoricamente, a candidatura tucana de José Serra.

Um dos exemplos mais eloqüentes do desarranjo na base governista, provocado pelas eleições municipais, é a disputa de Fortaleza. O ministro das Comunicações, Eunício Oliveira, está desde o primeiro turno trabalhando para eleger um candidato de oposição ao governo Lula: o deputado Moroni Torgan (PFL). Um executivo das empresas de Eunício, Gaudêncio Lucena comanda a campanha de Moroni, que é também apoiado pelo presidente da Transpetro, Sérgio Machado, também do PMDB.

Outro líder regional do PMDB que não deve apoiar o PT no segundo turno é o deputado Jader Barbalho (PA). O negociador petista para as eleições de Belém, o deputado Paulo Rocha (PT-PA), não tem muita esperança de apoio à candidatura da senadora Ana Julia Carepa, que disputa contra o senador Duciomar Costa, do PTB, e que já tem o apoio do governador tucano Simão Jatene. “A presença do PMDB no governo estadual, do PSDB, é um fator de inibição”, diz Rocha.

Quem também decidiu privilegiar a oposição no segundo turno foi o PPS. O partido divulgou esta semana documento em que define como aliado preferencial o PDT . O partido está apoiando os candidatos do PDT em Maceió, Cícero Almeida; e Salvador, João Henrique; e o do PSDB em Cuiabá, o deputado Wilson Santos.

“O PPS afirma cada vez mais sua independência. Não tivemos muito apoio do PT onde precisávamos. Onde foi que o PT ajudou algum aliado?”, pergunta Freire.

“O governo é autoritário”

O senador Antero Paes de Barros (PSDB-MT), afirmou que o Partido dos Trabalhadores (PT) “está perdendo sua capacidade de autocrítica”” e cada vez mais forma um governo com “viés autoritário”. O senador disse que o PT precisa, com sinceridade, repensar os conceitos de democracia, porque não está agindo corretamente no exercício do poder público. Para Antero, o autoritarismo está embutido em várias ações do partido.

O senador elencou algumas manifestações recentes do governo que considera autoritárias. Entre elas está intenção de diminuir a autonomia do Ministério Público (MP). Antero afirmou que mesmo já tendo feito críticas pontuais à atuação do MP, jamais tentaria suprimir poderes dessa instituição tão importante. “Os moços do MP fazem bem à sociedade brasileira”, disse.

Antero observou ainda que o PT precisa entender que democracia permite rotatividade do poder e que o partido voltará a ser oposição no futuro. “Aí precisará do MP, que neste momento quer amordaçar”, disse. O senador acredita que o PT precisa pensar no que é bom para a sociedade brasileira e que amordaçar o Ministério Público só é bom para os bandidos.

O parlamentar lembrou também que é jornalista e posicionou-se contrário ao projeto de criar o Conselho Federal de Jornalismo. O senador acredita que se fosse criado, seria um “conselho de petistas para controlar jornalistas” e que isso significa “a volta da censura ao Brasil”. Ele acredita que o projeto é flagrantemente inconstitucional.

O projeto apresentado pelo governo, de criação da Agência Nacional de Cinema e Vídeo (Ancinav), também não é bom, afirmou.

Cúpula deseja pressionar governadores

Rio e São Paulo (AG) -Por causa destas dificuldades, o PT quer que o governo Lula pressione alguns governadores para favorecer candidatos petistas. O presidente do PT, José Genoino, conversou na semana passada, por telefone, com os governadores Germano Rigotto, Blairo Maggi (PPS-MT), Paulo Hartung (sem partido-ES) e Marconi Perillo (PSDB-GO). Este último recebeu um telefonema do próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para cada governador o pedido é diferente. O PT espera neutralidade de Rigotto e Hartung, e apoio de Maggi e Perillo.

“Para alguns estou pedindo apoio, para outros neutralidade. Em Porto Alegre, Rigotto agiria com bom senso se não interferisse. O PT quer ter uma boa relação institucional com o governador!”, afirma Genoino.

Os petistas nunca precisaram tanto de seus aliados como em algumas capitais. Genoino fez um apelo para que Blairo Maggi apoiasse o petista Alexandre Cesar, no segundo turno de Cuiabá. O governador disse que não poderia atendê-lo por causa dos ataques gratuitos que recebe da senadora Serys Slhessarenko (PT-MT). O capixaba Paulo Hartung também não pode atender ao apelo de Genoino, pois o candidato do PSDB à prefeitura de Vitória, Cesar Colnago, é de seu grupo político, do qual faz parte também o atual prefeito, o tucano Luiz Paulo Velloso Lucas.

Antes de chegarem ao governo federal, era comum os candidatos petistas receberem o maior número de apoios no segundo turno. Neste tempo, os petistas se davam ao luxo de rejeitar aliados que consideravam indesejáveis. Nesta eleição, entretanto, está ocorrendo uma tentativa de isolamento dos candidatos petistas em cidades importantes como São Paulo e Porto Alegre. No Sul do país uma verdadeira frente anti-PT se formou para apoiar José Fogaça (PPS) à prefeitura de Porto Alegre. Ele, que teve o apoio do PTB no primeiro turno, recebeu para o segundo turno os apoios do PDT, do PFL, do PSDB, do PMDB e do PP.

O mesmo fenômeno está ocorrendo em São Paulo. A prefeita Marta Suplicy está indo disputar o segundo turno em condições de inferioridade contra o tucano José Serra. E, nesta hora em que ela mais precisa de apoios, eles faltam de todos os lados. O candidato do PDT, Paulo Pereira da Silva, decidiu apoiar o tucano. A candidata do PSB, Luiza Erundina, e o seu vice, o presidente do PMDB, deputado Michel Temer, decidiram não apoiar ninguém no segundo turno, sobretudo depois de terem sido esnobados durante as negociações para a campanha da reeleição de Marta.

“As eleições municipais criaram muitas dificuldades na base do governo”, afirma o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP), que na manhã de quarta-feira ouviu, por mais de duas horas, uma saraivada de críticas de líderes aliados aos candidatos petistas.

A direção do PT já percebeu o tamanho da insatisfação que terá de administrar depois do processo eleitoral. E também aproveita o segundo turno, naqueles locais onde os interesses do PT não estão em jogo, para fazer um agrado nos aliados. Na quinta-feira, sua executiva decidiu que dará prioridade às candidaturas aliadas do PSB, em Manaus, Serafim Correa, em Maceió, Alberto Sexta-Feira, e em Natal, Carlos Eduardo Alves; e a do PPS em São José do Rio Preto, onde o prefeito Edinho Araújo concorre à reeleição.

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