O corre-corre na Câmara e no Senado será apenas uma doce lembrança para um terço do seleto grupo de parlamentares que integram a atual lista dos mais poderosos do Legislativo brasileiro. Um em cada três dos 100 congressistas mais influentes, segundo a avaliação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), não voltará ao Congresso em 2007.
Entre os congressistas relacionados no último levantamento do Diap, 32 não exercerão mais o mandato no ano que vem. Desses, 25 voltam pra casa após terem sido derrotados nas urnas: além da senadora Heloísa Helena (Psol-AL), terceira colocada na corrida presidencial, 16 não conseguiram se reeleger, quatro tentaram sem sucesso trocar a Câmara pelo Senado e outros quatro fracassaram na disputa ao governo estadual.
Para cinco congressistas, no entanto, o afastamento do Congresso está longe de ser motivo de lamentação. Pelo contrário, é resultado de conquista nas eleições estaduais. Os deputados José Roberto Arruda (PFL-DF), Yeda Crusius (PSDB-RS) e Eduardo Campos (PSB-PE) vão trocar o gabinete em Brasília pelo de governador. O mesmo caminho será seguido pelo ex-líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP), e o senador Paulo Octavio (PFL-DF), eleitos vice-governadores.
Ao senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), único entre os 100 mais influentes em fim de mandato que não concorreu nas últimas eleições, caberá a tarefa de fazer do filho, Paulo Bornhausen (PFL-SC), deputado recém-eleito, o seu principal herdeiro político. Suplente do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), o deputado Roberto Freire (PPS-PE) só voltará a ocupar uma cadeira no Senado se o titular se licenciar ou renunciar ao cargo.
Para o diretor do Diap, Antonio Augusto Queiroz, responsável pela publicação ?Os Cabeças do Congresso?, mais que um apelo por mudanças, o elevado índice de renovação no mapa do poder da Câmara e do Senado é motivo de preocupação. ?Nesta eleição houve um crescimento dos partidos de esquerda, centro-esquerda e centro. Mas, dentro desses partidos, a renovação foi mais à direita. À luz do perfil socioeconômico, o novo Congresso tende a ser mais conservador nas políticas sociais e mais liberal na área econômica?, observa.
O fracasso eleitoral de parlamentares influentes em determinados setores acarretará perdas significativas para o trabalhador, na avaliação de Antonio Augusto. Ele cita, como exemplo, os deputados Sérgio Miranda (PDT-MG) e Carlos Mota (PSB-MG), dois dos principais especialistas em previdência e orçamento no Congresso. Apesar de terem conquistado, em outubro, mais votos que na eleição de 2002, eles não conseguiram renovar o mandato por causa do chamado coeficiente partidário (fator que define o número de vagas que cabe a cada partido por estado).
Distorção
Prestes a esvaziar o gabinete após 16 anos consecutivos na Câmara, Sérgio Miranda atribui o insucesso nas urnas à distorção promovida pelas campanhas eleitorais. ?Campanha é estética; e não, ética. Achei que só debater minhas propostas parlamentares seria suficiente, mas essa campanha foi marcada pelo ?eu fiz?: ?o Lula fez um Brasil melhor?, ?o Alckmin fez uma São Paulo melhor?. Esse tipo de campanha esvaziou os debates?, considera o pedetista.
Para o diretor do Diap, a crítica do deputado é procedente. Na avaliação dele, mudanças na legislação eleitoral, como a proibição da propaganda em outdoors, prejudicaram principalmente os chamados candidatos de opinião, aqueles pouco afeitos ao corpo-a-corpo nas ruas.
Entre os prejudicados pelas novas regras, o analista político cita os deputados Sigmaringa Seixas (PT-DF) e Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), ex-presidentes da poderosa Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), para os quais também faltou voto. Sigmaringa não quis comentar o resultado da eleição. ?Não tem o que dizer. Perdi e acabou?, disse.
Na relação dos ilustres futuros ex-parlamentares também aparecem nomes como o do atual vice-presidente da Câmara, José Thomaz Nonô (PFL-AL), derrotado na disputa ao governo de Alagoas; o do líder do governo no Congresso, senador Fernando Bezerra (PTB-RN); o do ex-ministro Delfim Netto (PMDB-SP) e o do ex-governador de São Paulo Luiz Antonio Fleury (PTB-SP). Os dois últimos não conseguiram votos suficientes para se reelegerem no maior colégio eleitoral do país, que fez do estilista Clodovil (PTC-SP) e do forrozeiro Frank Aguiar (PTB-SP) dois de seus novos representantes.
A maldição dos sanguessugas
Brasília – A definição dos parlamentares mais influentes no novo Congresso será ainda mais acirrada que na atual legislatura. Em termos de escolaridade, lembra ele, a futura Câmara será das mais instruídas. Pelos menos 413 (80,5%) dos 513 deputados têm curso superior completo. ?Em tese, o número de deputados em condições de integrar essa lista será maior no ano que vem. Mas tudo vai depender da desenvoltura e da capacidade de articulação dos eleitos?, diz Antonio Augusto Queiroz. O resultado eleitoral também foi negativo para outros quatro congressistas citados na lista dos melhores parlamentares em enquete divulgada em maio e que não aparecem no levantamento do Diap. São eles os deputados Cezar Schimer (PMDB-RS), Walter Barelli (PSDB-SP) e Orlando Fantazzini (Psol-SP) e o senador José Jorge (PFL-PE), que trocou a reeleição pela vaga de vice na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB). Também citado pelos jornalistas, o deputado Xico Graziano (PSDB-SP) não disputou a eleição.
O resultado das urnas caiu como maldição para alguns dos parlamentares que se destacaram na atual legislatura no comando de investigações contra os próprios colegas. É o caso do relator da CPI dos Sanguessugas, senador Amir Lando (PMDB-RO), e do presidente da comissão, o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ), ex-presidente da CCJ.
Os dois não voltarão ao Congresso no próximo ano e terão de acompanhar pela TV a atuação de cinco dos 72 parlamentares denunciados por eles na CPI que conseguiram se reeleger. Em vez de disputar a reeleição, Lando preferiu concorrer ao governo de Rondônia, e se deu mal. Foi apenas o quarto colocado na disputa, com 6,17% dos votos válidos. Considerado rigoroso pelos colegas investigados, Biscaia recebeu 55.909 votos – cinco vezes menos que o campeão de votos no estado, o seu companheiro de CPI Fernando Gabeira (PV-RJ).
Entre os suspeitos de envolvimento com a máfia das ambulâncias, apenas três figuravam na lista dos mais influentes do Diap, que excluiu este ano os chamados mensaleiros. Os deputados Inácio Leitão (PL-PB), cujo nome aparece em inquérito da Polícia Federal, e João Caldas (PL-AL), denunciado pela CPI, não conseguiram renovar o mandato na Câmara. Do mesmo fracasso experimentou o senador Ney Suassuna (PMDB-PB), alvo de processo de cassação no Conselho de Ética.
Além dos cinco parlamentares influentes que trocarão o Legislativo pelo Executivo, outros três dos ?cabeças? apontados pelo Diap têm o que comemorar: a passagem da Câmara para o Senado. São eles os deputados Inácio Arruda (PCdoB-CE), Francisco Dornelles (PP-RJ) e Renato Casagrande (PSB-ES), senadores recém-eleitos.


