Rio – Enquanto a Casa Branca institui a doutrina dos ataques preventivos e lança alguns dos maiores bombardeios da História, movimentos pacifistas também elevam o tom e radicalizam suas ações. A morte da pacifista americana Rachel Corrie, de 23 anos, domingo passado na Faixa de Gaza revelou uma nova face dos movimentos antiguerra, na qual o perigo deixou de estar apenas do lado dos soldados e agora acompanha também quem luta contra os conflitos.

“Desde que nosso grupo foi criado, foram convocadas pessoas que estavam dispostas a correr riscos pela não-violência da mesma forma que soldados durante uma guerra”, afirma, de Chicago, Claire Evans, do Christian Peacemaker Teams (CPT), grupo americano ligado a igrejas protestantes. “Não há razão para que pacificadores devam estar mais seguros do que soldados”.

O CPT mantém integrantes em lugares de conflito, como os territórios palestinos ocupados por Israel e a Colômbia, além de ter seis pessoas em Bagdá. Eles não se consideram escudos humanos, estrangeiros que se dispõem a permanecer em possíveis alvos de ataques como medida dissuasória. O CPT documenta a violência praticada e a apresenta à comunidade internacional.

O International Solidarity Movement (ISL) se tornou conhecido pela morte de uma de suas integrantes, Rachel, que tentava evitar a demolição de casas na Faixa de Gaza e foi atropelada por uma escavadora do Exército. “Já me falaram que foi estupidez da Rachel se envolver porque ela não iria mudar nada. Outros questionam por que ela estava fazendo o que fez se era tão perigoso. Francamente, acho isso a coroação da apatia”, afirma Huwaida Arraf, uma das fundadoras do ISL. “Isso é não se preocupar em lutar contra a injustiça no mundo, não espalhar o que as pessoas oprimidas têm para falar. Nesta mesma lógica, as pessoas não deveriam ter se preocupado com o que Hitler estava fazendo com judeus e outras minorias no Holocausto. Era problema deles”.

Huwaida, citando os relatos de quatro testemunhas, afirma que Rachel falava com o condutor da escavadora e subira num monte de destroços para estar bem à sua frente: “Se ela foi culpada de algo, foi de acreditar que outro ser humano que a olhava nos olhos não a atropelaria”. Acusando o governo de Israel de estar tomando atitudes cada vez mais violentas contra dissidentes, alguns grupos têm abandonado operações de escudos humanos, como o israelense Gush Shalom.

“Fizemos isso no passado, mas é difícil quando as coisas se tornam realmente sérias”, diz a israelense Beate Zilversmidt. Outros grupos adotam novas formas de ação. O americano Voices in the Wilderness, do movimento de escudos humanos em Bagdá, está praticando “ações não-violentas preventivas”.

“Semana passada invadimos a sede da Boeing, a segunda maior exportadora de armas dos EUA”, afirma Danny Muller, que já esteve no Iraque. “Levamos pedaços de mísseis da Boeing de volta para lá e dissemos: “Aqui está um pedaço de um míssil que você fez, que nós vimos que foi lançada no Iraque em civis.”

Em comum, todos os grupos têm a ousadia das ações e a disposição de correr riscos. Em janeiro, um membro do CPT, George Weber, morreu no Iraque num acidente de carro. “Ele foi para o Iraque pronto para o sacrifício de sua vida”, diz Claire. “Estava pronto para morrer”.