Rio

– Quando tomou a iniciativa de patrocinar a criação de um conselho de jornalismo e propôs uma agência para controlar a produção audiovisual e de cinema, o governo mexeu num vespeiro. O debate sobre a liberdade de expressão ganhou terreno e dividiu políticos e artistas. Alguns viram traços de autoritarismo e censura – impressão reforçada pela intenção de limitar o acesso da imprensa a servidores. Outros, apenas incompetência. As críticas não se restringem à oposição. O deputado Paulo Delgado (PT-MG) afirma que o governo Lula deve admitir e corrigir os excessos do exercício do poder:

“Somos um governo da nossa centenária história republicana. Não devemos ter a pretensão de ser tão originais, produzindo esse ineditismo jurídico a cada dia. Ter o poder democrático para fazer não legitima decisão errada ou lhe confere credibilidade. Nosso governo tem de reconhecer isso ou viraremos motoniveladoras”, analisa Delgado, que inclui na lista de erros a reeleição dos dirigentes do Congresso e a medida provisória que dá status de ministro ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Ex-petista, o ex-deputado Milton Temer (RJ) rejeita a tese do autoritarismo e atribui as polêmicas a um “mandonismo sindicalista”: “Lula sempre trabalhou assim, impondo a posição da maioria em detrimento da da minoria. Quem tem o controle do aparelho pode tudo. Mas autoritarismo foi o que a ditadura militar fez”.

Para Elisabeth Sussekind, ex-secretária nacional de Justiça, falta assessoria competente: “Não sei se se trata de uma onda de autoritarismo ou se é o próprio estilo de algumas autoridades do PT, que às vezes se esquecem da Constituição e emitem opiniões sem respaldo. Trata-se da falta de técnicos gabaritados”. Já o historiador José Murilo de Carvalho não tem dúvidas de que o governo vive um surto autoritário e erra na política: “O governo parece gostar de se sabotar. Quando a economia começa a lhe render dividendos de popularidade, os comissários atacam de censores”.