Brasília

(AG) – Cinco meses depois da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a correlação de forças nos partidos aliados ou que aderiram ao governo mudou. Os que se aliaram ao governo e se articularam com o chefe da Casa Civil, José Dirceu, ficaram fortes em seus partidos. Os que se mantiveram na oposição, perderam terreno e estão isolados.

No PMDB e no PP, quem tinha poder no governo Fernando Henrique foi empurrado para fora do centro das decisões e novos atores emergiram. Aliado no segundo turno, o PDT está à margem. Para não serem escanteados, os presidentes do PMDB, Michel Temer (SP), e do PPS, Roberto Freire (PE), recompuseram-se com as novas maiorias.

Depois de ter conseguido 15,1 milhões de votos no primeiro turno das eleições presidenciais, e de ter ajudado Lula a ampliar sua votação no segundo turno, o secretário de Segurança Pública do Rio, Anthony Garotinho, enfraqueceu-se tanto em seu partido que já está à procura de outras alternativas. “Há uma reação interna natural. O PSB existia antes do Garotinho e ninguém aceita imposições sobre como o partido deve ser”, diz o deputado Beto Albuquerque (PSB-RS), vice-líder do governo.

O comando do PSB decidiu enfrentar Garotinho, que queria o controle da sigla, para ter garantida sua candidatura à Presidência em 2006. O presidente do PSB, Miguel Arraes, não cedeu. Não aceitou entregar para aliados de Garotinho as comissões provisórias em seis estados e nem nos dois em que houve intervenção.

Do contra

O ex-governador do Rio não conseguiu fazer o presidente da Petrobras como desejava e ensaiou levar o partido para uma posição contra o governo na votação da emenda ao artigo 192. Mas teve de recuar diante da blindagem feita pelo presidente do PSB, pelo líder na Câmara, Eduardo Campos (PE), e pelo ministro Roberto Amaral. Agora quer dar um susto no partido com encontros sucessivos com o presidente do PDT, Leonel Brizola, e contatos com o PMDB. “Vai haver um entendimento. Mas o governo precisa saber que há um descontentamento que não é externado. O PSB tem quatro governadores e não foi atendido como merecia pelo governo do PT”, diz o secretário-geral do PSB, Alexandre Cardoso (RJ). A maior reviravolta ocorreu no PMDB. O trio todo-poderoso, formado pelos deputados Geddel Vieira Lima (BA), Eliseu Padilha (RS) e Moreira Franco (RJ), hoje está à margem do poder. “Não tem desconforto. Conforme muda a opinião pública, a maioria também muda”, diz Padilha, confiante na volta por cima.

Depois de tantos anos envolvido numa briga fratricida, o PMDB parece ter abandonado o seu lema de que a luta continua. Uma parte do partido, liderada pelo presidente do Senado, José Sarney (AP), aderiu a Lula durante as eleições. Outra, sob o comando do líder no Senado, Renan Calheiros (AL), subiu na arca petista logo depois da posse.

O último a se render foi o presidente do PMDB, Michel Temer (SP), que, com pose de magistrado, proclamou ser a expressão da vontade da maioria.

PDT enfrenta momento delicado

Brasília

(AG) – A situação de maior isolamento no governo está sendo vivida pelo PDT. Com 16 deputados, o partido se tornou o patinho feio da base aliada depois de ter decidido votar contra a reforma da Previdência. Os trabalhistas reclamam que grande parte dos problemas políticos se deve ao desprezo com que o presidente do PDT, Leonel Brizola, e seus pleitos foram tratados pelo governo Lula. “Sinto que estamos isolados e é grande o constrangimento. Todos almoçam com o Lula, para o PDT não oferecem nem um cafezinho”, reclama o vice-líder, Doutor Hélio (SP).

A crise se aprofundou quando Brizola recebeu o deputado Lindberg Faria (PT-RJ) e a senadora Heloísa Helena (PT-AL) em seu apartamento, em Copacabana, para traçar estratégias para bombardear a reforma da Previdência proposta por Lula. No PP, afundaram os ex- todos poderosos como o deputado Francisco Dornelles (RJ), ministro do Trabalho de Fernando Henrique, e o vice-líder do governo anterior, Ricardo Barros (PR). O principal cacique do partido, Paulo Maluf, foi jogado no ostracismo e ficou de fora da propaganda do partido em rede nacional de televisão. Os governistas festejam.

Com ministério

O deputado José Janene (PP-PR) garante que o partido vai ter ministério mais na frente. O apoio às reformas e ao governo Lula foi acertado numa reunião entre o ministro José Dirceu e o presidente do PP, Pedro Corrêa (PE), e o líder Pedro Henry (MT). Apesar da mudança, a posição da minoria será respeitada. “Nós temos liberdade para votar contra o governo. A Casa Civil tem que fazer a conta de que tem de 30 a 34 votos no PP em uma bancada de 45 deputados”, afirma Barros.

Quem também resolveu baixar a bola para não perder o poder foi o presidente e líder do PPS, Roberto Freire (PE). Sua relação com o ministro Ciro Gomes está a cada dia mais fria. A situação só não degringolou porque os dois estão afinados na política de apoio às reformas e à política econômica. “As coisas se acomodaram, o Freire e o Ciro têm uma relação mais distante, mas encontraram um modo de convivência”, resume o deputado Leônidas Cristino (PPS-CE).