É preciso filtrar com muito cuidado as notícias que têm sido divulgadas sobre problemas comerciais e diplomáticos entre a Argentina e o Brasil. As mais recentes informações vêm de um jornal de Buenos Aires, o Clarín, de origem peronista e que costuma dar destaque às vezes ruidoso a informações que capta e que, em periódicos mais comportados, não ganhariam mais do que algumas linhas de tranqüilos comentários. Ainda recentemente, discorrendo sobre um evento futebolístico entre a Argentina e o Brasil, o mesmo jornal se prestou a manchetes que os fatos estavam longe de justificar.
De qualquer forma, há de se reconhecer que há algo mais do que simples notícias. Senão, vejamos: o Brasil é o maior e mais populoso país da América do Sul. A Argentina, o segundo. A nossa economia é mais poderosa em comparação com a do país vizinho. As fronteiras comuns, em vários pontos, sempre ocasionaram desentendimentos e volta e meia são fechadas ou arrochada a fiscalização sobre o trânsito de mercadorias de um lado para o outro.
Há, no campo comercial, desentendimentos que podem ser considerados sérios, a começar pelo acordo automotivo, cuja solução ficou para o ano que vem, mas os problemas já ocorrem e afligem a indústria e os importadores do país vizinho. Os nossos automóveis são sobrecarregados de tributos, com o que não concordam os argentinos. Também nos acusam de ?dumping?, em especial no campo dos eletrodomésticos, que produzimos em maior escala e têm a preferência dos consumidores argentinos. Aí, há troca de subsídios ou encargos, seja como retaliação, seja como proteção para os produtos de um ou outro país. Somos concorrentes e nossas economias não são complementares.
No mais, embora pareça de segunda importância, devemos nos lembrar da rivalidade que vai do futebol à liderança política no Mercosul, na América do Sul e no terceiro mundo.
Lula busca a liderança política e seus últimos passos foram ruidosamente comentados aqui e em todo o mundo. Buscou aproximação com a África, com a Venezuela, com Cuba, com a Colômbia e a Bolívia e, mais recentemente, buscou mediar a crise no Equador. Aí, deu motivos para o governo argentino discordar, argumentando que esse é um papel da OEA e não da administração federal brasileira.
A ajuda política que FHC deu à Argentina, quando esta entrou em moratória, parece esquecida. Na época, o presidente brasileiro deu o aval moral de sua administração e do Brasil à Argentina, junto ao FMI. Pois é da falta de apoio junto ao FMI que o governo Kirchner queixa-se, em relação à administração Lula. Que não há uma crise tão grande e profunda quanto anuncia o jornal portenho, parece não haver dúvida. Mas que existe uma rivalidade em vários campos, da política aos esportes e aos negócios, é indubitável, e a diplomacia brasileira precisa estar preparada e atenta para apagar fogueiras. Elas existem por razões que ninguém desconhece. Em geral, por pura irracionalidade de vizinhos que disputam liderança.