O recuo do Brasil em relação às eleições na Organização Mundial do Comércio (OMC) e a decisão do País de apoiar o candidato uruguaio Carlos Perez del Castillo foram interpretados por diplomatas latino-americanos como um reconhecimento do Itamaraty da sua derrota diplomática na corrida para o cargo máximo da entidade com sede em Genebra. A notícia sobre o apoio do Brasil ao Uruguai foi dada praticamente às vesperas do início da última rodada de votações para definir quem será o próximo diretor da OMC. Para o governo uruguaio, o apoio brasileiro poderá fazer com que outros países também votem pelo candidato de Montevidéu.
A eleição na entidade ocorre em etapas. Na primeira, quando quatro negociadores disputaram apoios, o Brasil contava com a candidatura do embaixador Luis Felipe Seixas Corrêa. Mas o País foi eliminado logo de cara. Na semana passada, foi a vez de o representante de Ilhas Maurício, Jaya Krishna Cuttaree, ser eliminado. Para a próxima fase, que começa na semana que vem, Castillo disputa com o candidato francês Pascal Lamy, que no turno anterior foi quem recebeu o maior número de apoios.
Depois de ser eliminado, o Brasil optou por não votar na segunda fase. O uruguaio não contava com a simpatia do Itamaraty depois de ter redigido, na condição de presidente do Conselho Geral da OMC, um rascunho de acordo de liberalização agrícola em 2003 que não favorecia aos países emergentes. Por isso, o Brasil foi o único país latino-americano a não apoiar o Uruguai. Mas, ontem (4)à noite, o governo emitiu comunicado informando que havia decidido dar seu voto a Castillo.
Montevidéu, que se disse "muito satisfeito" com a decisão do Brasil, considerou a iniciativa de tal importância que a própria chancelaria uruguaia traduziu o comunicado de imprensa elaborado pelo Itamaraty e o enviou para os jornalistas de todo o mundo. Em Genebra, o embaixador do Uruguai na OMC, Guillermo Valles, considerou que "o peso simbólico do apoio" terá repercussões importantes para a candidatura de Castillo. A esperança dos uruguaios é de que outros governos, como o da Índia, sigam os passos do Brasil. Para diplomatas de outros países, o Itamaraty poderia ter evitado um desgaste e até economizado recursos se simplesmente tivesse permitido que Castillo concorresse como o único candidato da região desde o início.
A nota do Itamaraty ainda provocou comentários no mundo diplomático. Para alguns, pelo fato de ser breve e sem qualificar a candidatura do uruguaio, a nota mostraria que Brasil está apoiando apenas para evitar uma situação ainda pior em suas relações com seus vizinhos. O comunicado apenas diz que "o chanceler Celso Amorim, após examinar o assunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, telefonou para o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, e comunicou que o governo brasileiro apoiará o candidato sul-americano Carlos Pérez del Castillo para o cargo de diretor-geral da OMC".
Outro fato que chamou a atenção dos diplomatas latino-americanos em Genebra foi a maneira com que o Itamaraty informou sobre a decisão do apoio ao Uruguai. Para alguns embaixadores, "não ficou elegante" mostrar no comunicado que quem fala com o presidente do Uruguai é o chanceler brasileiro, e não o próprio presidente Lula. "Será que o Brasil pensa que um ministro tem o valor de um presidente", questionou um alto funcionário da diplomacia latino-americana. Segundo a chancelaria uruguaia, Amorim e Castillo estiveram em Paris nos últimos dias, mas não se encontraram. Valles, embaixador de Montevidéu na OMC, confirma que as duas delegações que estavam participando de reuniões em Paris não tocaram no tem da eleição.
Lógica regional
Já observadores dentro da própria OMC apontam que a decisão do Brasil em apoiar o uruguaio deve ser entendida dentro de uma lógica latino-americana e diante das pressões que o governo está recebendo de seus vizinhos. A Argentina se queixa que o Brasil pretende ocupar uma posição de liderança na América do Sul sem fazer concessões aos vizinhos. Um exemplo seria a busca do Brasil por ocupar cargos nos organismos internacionais. Já o ministro da Indústria do Paraguai, Ernst Bergen, afirmou na semana passada, em Genebra, que o Brasil não estava facilitando a abertura de seu mercado para os produtos paraguaios e que o tratamento dado a Assunção era equivalente ao que Brasília recebe das grandes potências econômicas.


