Os bons resultados do primeiro semestre relativos ao controle da inflação, balanço de pagamentos e superávit primário das contas públicas não são suficientes para disfarçar a preocupação de empresários e trabalhadores com a letargia do mercado e as estatísticas da produção, vendas, desemprego… A credibilidade interna e externa conquistada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não se traduziu em aquecimento do nível de atividades. É como se os próprios gestores da política econômica estivessem inseguros quanto ao momento de abrir as cortinas do “espetáculo do crescimento” propalado pelo chefe da nação. Essa percepção, tudo indica, não é fortuita ou leviana. Foi sintomática a declaração, em Bruxelas, na Bélgica, do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, que integrava a comitiva do presidente Lula na recente viagem à Europa: “Há convergência total dentro da equipe de governo de que o País precisa retomar o crescimento”, mas, porém, contudo, todavia, “estamos só discutindo o quanto e a velocidade”. Conjunções adversativas somam-se ao adjetivo “sustentável”, repetido à exaustão no conteúdo retórico do discurso oficial do crescimento e, de quebra, em outros programas e metas governamentais. De concreto, mesmo, empresários e trabalhadores têm o frio e objetivo número há pouco divulgado pelo Banco Central: a previsão de crescimento em 2003 caiu para 1,5%, índice que, em termos reais, significa queda, em especial se confrontado com a expansão demográfica vegetativa, com o passivo de desemprego, capacidade ociosa das plantas industriais, estoques gigantescos de veículos nos pátios das fábricas e de outros bens industriais encalhados e, sobretudo, com os olhares inseguros dos jovens em busca do primeiro trabalho. As feridas provocadas pelo prolongado crescimento próximo de zero já são muito nítidas na economia. A tradicional capacidade de resistência e criatividade de empresas e pessoas para vencer tempestades já se estão esgotando. Grande parte das indústrias trabalha há muito tempo abaixo de sua capacidade; o comércio mantém as portas abertas por absoluta renitência; a agricultura gera resultados positivos abandonando antigas vocações para se tornar quase monocultura de commodities. Os programas sociais do governo e a verdadeira cruzada do Terceiro Setor estão no limite do atendimento à crescente demanda da exclusão. Todos mantêm a tradicional e indefectível crença no “Brasil país do futuro”, mas já não disfarçam a ansiedade pelo início do processo de retomada do crescimento. Estas reflexões, por certo compartilhadas pela nação, foram o principal tema de recente encontro informal de empresários na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao qual estive presente. De forma unânime, reconheceram que o bom comportamento monetário da economia e figuras de retórica já não produzem resultados em termos de reciclar os ânimos dos setores produtivos. Mesmo insustentável, a expansão do nível de atividades, sem “poréns”, é uma necessidade premente. “Bolha de crescimento já”, pedem os empresários. Caso contrário, não haverá muitos sobreviventes para usufruir o “círculo virtuoso do crescimento sustentado”…

Alfried Karl Plöger

é presidente da Abigraf Regional São Paulo e da Associação Brasileira de Companhias Abertas (Abrasca).