Um dos principais embates na reunião anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de segunda a quarta-feira, será entre a posição americana e a brasileira (e de outros países latino-americanos) na questão do aumento dos empréstimos da instituição ao setor privado.

O Brasil e outros membros do BID querem que a ampliação dos financiamentos ao setor privado seja direcionada para investimentos em infra-estrutura e para as parcerias público-privadas (PPPs). Os Estados Unidos, porém, querem que os empréstimos para o setor privado beneficiem pequenas e médias empresas.

Para os americanos, investimentos em infra-estrutura ou em PPPs acabam sendo formas de financiar o setor público, que geralmente está por trás destes projetos, o que desvirtuaria a idéia de canalizar recursos especificamente para o setor privado

O BID hoje pode emprestar até 10% de sua carteira anual para o setor privado. Na realidade, empresta de 3% a 4%. Como os governos dos países membros, na sua quase totalidade, enfrentam severas restrições fiscais e têm dificuldade em assumir novas dívidas, a instituição precisa ampliar seu mandato para emprestar mais para o setor privado, caso pretenda continuar como uma mola propulsora do desenvolvimento na região.

O presidente do BID, Luis Alberto Moreno, acha que o banco pode se envolver com as PPPs no Brasil, o que o deixa mais próximo da posição brasileira do que da americana.

Em recente entrevista em Washington, o secretário-assistente do Tesouro americano para Assuntos Internacionais, Clay Lowery, confirmou que o principal foco dos Estados Unidos, no caso da ampliação do financiamento ao setor privado, são de fato as pequenas e médias empresas. "Nós tentamos focalizar nos pequenos e médios negócios porque é aí que reside a criação de empregos."

Segundo o secretário-assistente, os Estados Unidos querem que a abertura para o setor privado beneficie "aqueles que têm menos oportunidades". Para ele, este objetivo será atingido por meio "do desenvolvimento das pequenas e médias empresas, e não necessariamente por meio de grandes projetos de desenvolvimento em infra-estrutura".

Lowery, que está chefiando a delegação dos Estados Unidos na reunião de Belo Horizonte, acrescentou que o pacote que o BID preparou para ampliar a participação privada não aborda os temas que interessam aos Estados Unidos. "Esta é uma das nossas grandes preocupações."

O secretário-assistente também explicou que outro dos objetivos americanos em relação ao BID é envolver a instituição nas iniciativas de perdão de dívidas de países muito pobres que já foram adotadas por outras instituições financeiras multilaterais. "Temos feito algumas sugestões sobre como aliviar os países mais pobres da América Latina das suas dívidas junto ao BID", disse Lowery, lembrando que uma grande iniciativa desse tipo vem sendo tocada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e pelo Banco Africano de Desenvolvimento nos últimos anos. "O BID, de certa forma, ficou de fora", observou o secretário.

Ele admitiu, no entanto, que uma iniciativa deste tipo no BID seria complicada, por causa das particularidades da estrutura financeira da instituição, quando comparada com o FMI e com o Banco Mundial. "Será muito difícil resolver os detalhes técnicos", disse Lowery, acrescentando que "isto não é alguma coisa que acontecerá em uma questão de dois ou três meses".

O secretário-assistente, que chegaria a Belo Horizonte neste fim de semana, deve viajar para São Paulo depois da reunião anual do BID, e tem uma programação de encontros com pequenas e médias empresas, com especialistas em redução de pobreza e com responsáveis por projetos habitacionais.