Depois do grande sucesso do empréstimo consignado, os bancos decidiram colocar suas fichas na expansão do crédito imobiliário. Além do aumento no volume a ser emprestado, várias instituições já começaram a lançar produtos com taxas diferenciadas e a criar melhores estruturas para atender os clientes. O movimento inclui os principais bancos privados do País, que voltaram a apostar no crédito para pessoa física com a criação do empréstimo com desconto em folha de pagamento.

A perspectiva é de que a carteira do setor, que em dezembro atingiu R$ 4,8 bilhões, tenha um crescimento de até 50% este ano. Só no primeiro bimestre, esse volume havia chegado a R$ 5,2 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). O número de unidades financiadas em 12 meses somou 65.576.

O interesse dos bancos nessa modalidade de crédito, até então desprezada por causa dos elevados riscos, deve-se especialmente à estabilidade da economia, com redução da taxa básica de juro (Selic), e à mudança na legislação. "As novas regras, como patrimônio de afetação e alienação fiduciária, deram maior segurança jurídica aos contratos imobiliários", afirmou o diretor do Departamento de Empréstimos e Financiamentos do Bradesco, Alexandre da Silva Glüher.

Segundo ele, o maior banco privado do País destinará ao mercado R$ 2 bilhões em novas operações este ano, ante R$ 750 milhões de 2005. "Estamos seguindo o caminho de outros países, como Chile e México, que elevaram suas carteiras de crédito imobiliário com a estabilização da economia." Além disso, a melhoria da renda, embora em níveis ainda modestos, dá boa sinalização a essa modalidade de financiamento.

A aposta também está associada ao fato de o crédito imobiliário ser um importante instrumento para captar e fidelizar clientes, completa o superintendente de Negócios Imobiliários do Unibanco, Renato Ventura. Como se trata de uma linha de longo prazo, a oportunidade de ganho com a venda de outros serviços aos credores é grande.

Segundo Ventura, o Unibanco já tem sentido uma procura maior da população pelo crédito imobiliário. "Estamos completando dez anos de estabilidade econômica. Isso cria na cabeça do consumidor a idéia de que é possível planejar uma compra de longo prazo." A expectativa do banco é que a carteira tenha um crescimento entre 30% e 40% este ano.

No Itaú, o segundo maior banco privado do País, R$ 1,4 bilhão serão destinados ao empréstimo imobiliário em 2006. O banco também lançou um produto com taxa prefixada (1,45% ao mês) em 180 prestações iguais. Produto semelhante pode ser encontrado no Bradesco. O Banco Real ABN Amro também estuda a criação de uma linha prefixada.

Neste caso, o cliente opta por uma taxa prefixada, em torno de 16% ao ano, para não correr o risco com a variação da TR (Taxa Referencial), explica o superintendente de Crédito Imobiliário, Hus Morgan. Segundo ele, o ABN aposta num aumento de 45% da carteira de crédito imobiliário este ano, comparado a 2004.

Outro banco que tem se preparado para uma expansão dos empréstimos imobiliários é o HSBC. No último ano, o banco trabalhou na criação de centros hipotecários nas grandes capitais para atender melhor aos clientes com profissionais especializados. A expectativa é que os financiamentos dobrem este ano e sua participação na carteira total de crédito do banco suba de 5% para 10%.

Na avaliação do professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) William Eid Jr., todo esse interesse só irá beneficiar os consumidores. Embora as taxas ainda estejam elevadas, o aumento da oferta tende a reduzir os juros cobrados no mercado. A redução da dívida pública, com a queda dos juros nominais, fará os bancos procurarem novos ativos no mercado, afirmou. Mas alertou o consumidor a ter cuidado com o alto endividamento, que nunca é benéfico.