Precisa ter um olho muito clínico para dizer que o carro customizado do motorista Sidney da Silva Araújo, 44 anos (ele fez aniversário ontem), é um Fusca furgão. Originalmente, o carro era um Fusca ano 1962. Mas o veículo foi adaptado pelo dono anterior, uma autoelétrica da capital. Há 10 anos, Sidney já comprou o automóvel com a modificação. Já nas mãos do motorista, o carro chegou até a participar de um dos episódios do Casos e Causos, da RPCTV, o “Amar Sem Ser Amado”.

Você leitor, lembra-se das extintas lojas Hermes Macedo (HM)? Se você tem mais de 30 anos, deve-se lembrar, pelo menos, que seus pais o levavam para ver o Papai Noel da HM, toda época de Natal. E o que isto tem a ver com o Fusca do Sidney? Tudo!

Na época em que a loja existia, a HM vendia “kits furgão”, que justamente eram para ser adaptados em Fuscas e transformá-los em veículo de cargas. Naquela época, explicou Sidney, era muito mais fácil alterar um veículo e conseguir a regularização junto ao Detran, com a respectiva mudança de veículo de passageiros para carga “camioneta/furgão”.

Nestes 10 anos, Sidney mudou muita coisa no carro, a começar pela pintura personalizada, que antes das atuais “raias”, tinha o desenho de um zíper abrindo na lataria. Aliás, quando fez esta segunda pintura, o motorista queria usar a tinta com flakes (com fragmentos brilhosos). Mas o produto era muito caro e ele teve uma grande ideia quando viu os vidros de esmalte de sua esposa. Ela tinha um esmalte com gliter. Sidneu coou o esmalte, para ficar apenas com os gliters, e misturou na tinta para fazer um teste. Gostou do resultado e acabou comprando mais de 50 vidros, a R$ 1 cada um, para conseguir pintar todo o carro. Ainda colocou adesivos refletivos, para delimitar os raios pretos da parte em amarelo. No bagageiro, ele pregou uma prancha de surf, para dar um ar retrô da época dos woodies.

Inventividade

As portas abrem na diagonal, num sistema inventado pelo próprio motorista (como tudo no carro), com amortecedores de capô. Pelo controle remoto, ele consegue tanto abrir as portas, quanto ligar o motor, brincadeira que já assustou alguns curiosos que se aproximaram do carro vazio e fechado. Os pára-lamas feitos em chapas de chão de ônibus ganharam recortes, iluminados por neon. Para que as lâmpadas do neon não ficassem expostas, Sidney adaptou pedaços de box de banheiro no acabamento. O parachoque traseiro é do Palio e encaixou certinho, precisando apenas de pequenas adaptações. A calota externa da roda dianteira foi feita em chapa de alumínio e continua rodando mesmo depois que o carro para, num efeito chamado spinner. Sidney as adaptou usando rolamentos de skate.

Os retrovisores são de moto e o farol é do Ford 1929. Aliás, falando em farol, você diria que o paralamas é do Fusca? É original do carro e passou por uma pequena adaptação. Dentro do paralamas, na parte que recebia o farol original, o motorista inverteu o protetor interno do farol, colocando a parte côncava para fora e deixando o paralamas com um “bico” na frente.

Alumínio

Os filetes da grade dianteira foram cortados de uma chapa de alumínio e foram adapatados, um a um, por Sidney, que demorou uma semana trabalhando na grade. Como acabamento, as grades ganharam “flames” ao redor, que o próprio Sidney cortou na chapa de alumínio usando uma serra tico-tico. Depois ele limou cada cantinho, para alisar e tirar as rebarbas. Já o párachoque dianteiro é o original do Fusca e ganhou algumas picaretas, para ficar parecido com os antigos calhambeques, além de lâmpadas estrobo. Para integrar a grade dianteira aos paralamas, o motorista adaptou uma saia de fibra.

Motor

Nas laterais, há aberturas de entrada de ar, para refrigerar o motor AP 1.8 a álcool de Santana. Com a mudança, foi necessária a alteração na caixa de c&acir,c;mbio, com a entrada da caixa da Kombi diesel. Sidney explicou que a furação do motor encaixou exata na caixa. O radiador, colocado na parte da frente do Fusca (portamalas), é do Fiat Oggi. Acima do radiador ainda há um cilindro de ar comprimido, usado para abrir a tampa do portamalas automaticamente.

No painel, o carro tem um autometer com outros três relógios integrados (temperatura da água, pressão do óleo e conta-giro). Internamente há outras personalizações, incluindo a manopla feita de bola de sinuca. O conforto fica por conta dos bancos de couro e a praticidade por conta dos tapetes e espelhos de porta feitos em chapa de chão de ônibus.

Som

Sidney já usou o Fusca furgão para trabalhar com mensagens ao vivo, e por isto investiu pesado em equipamentos de som. E foi justamente por isto que foi convidado a participar do Casos e Causos, da RPC. Era um episódio de um rapaz apaixonado por uma mulher, que não queria nada com ele. Uma das tentativas de chamar a atenção da moça foi fazer uma mensagem ao vivo em frente à casa dela, e aí o Fusca furgão de Sidney entrou em cena. No fim do episódio, o casal acabou junto.

Dentro do furgão, não cabe nada além do motor e da aparelhagem de som: quatro cornetas, um super twiter, dois auto-falantes de 10 polegadas, outros dois de 12 polegadas e mais dois com 15 polegadas. Tudo isto, só para os sons graves. Dentro da cabine do Fusca há mais oito cornetas, dois auto-falantes de 10 polegadas atrás dos bancos, um crossover, dois equalizadores, um aparelho de DVD e uma tela de DVD de sete polegadas.

Homicídio

Em geral, todos os locais e situações em que Sidney esteve com o carro sempre foram muito engraçadas e divertidas. Mas também já passou por situações difíceis. A pior delas foi presenciar um homicídio, há quatro anos, no Cajuru, enquanto esperava o horário de fazer uma mensagem ao vivo para um casal de noivos, que havia acabado de casar. O motorista diz que chegou ao local 20 minutos antes do combinado. Estacionou embaixo de uma árvore e ficou esperando os noivos chegarem. Ele viu que um rapaz numa bicicleta foi rodeado por outros quatro homens, alguns metros à frente de seu Fusca. Depois do grupo discutir, um dos homens matou o rapaz na bicicleta a tiros. Os assassinos não enxergaram que havia alguém dentro do Fusca.

Sidney conta que ficou paralisado, sem saber o que fazer. Começou a ficar preocupado, já que não havia clima nenhum para a mensagem aos noivos e também porque ele não teria como sair dali, já que o corpo estava estendido no meio da rua. No fim das contas, os noivos entraram pela rua de cima. Sidney conseguiu dar a ré e manobrar para chegar ao local correto. Extremamente nervoso e agoniado para terminar o serviço logo, ele diz que fez a homenagem e se mandou embora. No outro dia, não quis nem ver os jornais para saber do crime.

Aliocha Maurício
Veja na galeria de fotos o Fusca.

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