Considerada a parte mais importante do roteiro da viagem à África, a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Nigéria começou hoje (11) em meio a um mal-estar político. O governo brasileiro queria aproveitar a viagem para fechar parcerias comerciais com o país africano na tentativa de reduzir o déficit da balança comercial entre as duas partes, que já passa de U$ 4 bilhões em favor dos nigerianos. O problema é que, além de ter poucas informações sobre as restrições comerciais e tributárias impostas pela Nigéria aos produtos brasileiros, a comitiva presidencial brasileira chegou ao país sem a presença de empresários que pudessem acertar qualquer nova operação comercial com os nigerianos. Lula interferiu e autorizou o uso do avião "sucatinha"- reserva da presidência da República – para que uma missão de empresários brasileiros venha fazer negócios na Nigéria.

A previsão é de que a missão chegue à Abuja no início do segundo semestre deste ano. "A Nigéria é o maior déficit comercial do Brasil e estamos indo para U$ 4 bilhões de déficit" disse o ministro do Desenvolvimento, Luiz Furlan, que chegou ao País com uma obsessão: fazer negócios com os nigerianos no valor de U$ 1 bilhão. "É prioridade do Brasil", completou o ministro.

Furlan protagonizou cenas explícitas de irritação em pleno salão do Palácio do Governo, antes da reunião de trabalho dos presidentes do Brasil e da Nigéria, que contou com a participação de ministros dos dois países. "Temos que ter mais informações sobre as barreiras impostas aos produtos, senão essa reunião será inócua", desabafou o ministro a diplomatas e ao embaixador do Brasil na Nigéria, Carlos Guimarães. "Metade do petróleo que consumimos está aqui na Nigéria e mesmo aumentando em 154% nossos negócios não vamos chegar a U$ 1 bilhão Vamos ficar sentados aqui sem nada", prosseguiu.

Furlam ficou irritado com o fato de a reunião entre as delegações não terem começado antes da chegada do presidente da Nigéria, que estava em encontro reservado com Lula. "Lá em Camarões foi diferente. Aqui ninguém sabe quem é quem e estamos jogando meia hora ou 40 minutos de tempo fora", disse ele, criando um mal-estar entre os diplomatas.

A primeira providência do diretor de promoção comercial do Itamaraty, Mario Vilalva, foi procurar o ministro da Indústria da Nigéria na tentativa de suavizar a aflição de Furlan. Mesmo assim ele não se conteve quando deparou não com o ministro mas com seu representante. "Eu quero falar é com o ministro e não com este representante", devolveu Furlan, que iniciou com o nigeriano uma conversa agressiva e ao mesmo tempo carregada de ironias. Ele começou a conversa citando cada produto e perguntando quais eram as restrições para comprá-lo do Brasil, ao que o nigeriano respondia com evasivas, afirmando que alguns tinham limitações mas que dependia da competitividade. "Vocês têm preferência por alguns países? É na base do primeiro a chegar e o primeiro a servir? ", quis saber Furlan.

O ministro pediu dados mais atualizados da tabela de importação e o representante do governo nigeriano reconheceu que os últimos eram de 2004. Furlan ironizou afirmando que, no Brasil, pode saber nove horas antes do dia anterior o que vai acontecer e ainda ofereceu tecnologia para atualização de dados econômicos à Nigéria.

A irritação de Furlan tinha outros motivos, além das dificuldades de avançar nos negócios. Ele reclamou que passara por quatro barreiras policiais antes de chegar à reunião de trabalho. "Estamos hospedados aqui ao lado e fui parado quatro vezes", disparou.

Ao final da reunião de trabalho e mais calmo, o ministro informou que o presidente Olusegun Obasanjo se comprometeu ao embaixador do Brasil em Abuja, Carlos Guimarães, a fornecer informações sobre as limitações e a pauta de produtos que podem ser comprados pelo Brasil, dando o pontapé nas negociações bilaterais. "Cerca de 70% das exportações do Brasil para a Nigéria este ano são de gasolina e açúcar. Embora nossas exportações estejam crescendo 150%, mas ainda estão muito distante das exportações nigerianas que também estão crescendo mais de 90% este ano. Então se somar o petróleo, açúcar e gasolina isso representa 90% e tudo o que o Brasil produz eles importam", disse o ministro, citando uma lista enorme de produtos, como maquinários, tubulações, equipamentos elétricos e mecânico, caminhões, ônibus, trigo e alimentos.

O presidente Lula vai determinar também que a Petrobrás estude um mecanismo de garantia para que os exportadores brasileiros possam usar os créditos que a Nigéria tem a receber com importações feitas pela Petrobrás. O presidente da Petrobrás José Eduardo Dutra, que inicialmente estava previsto para integrar a comitiva, deverá examinar o assunto, segundo Furlan.

Segundo ele, o Brasil fez um esquema na Argélia e o comércio cresceu este ano em 120%, com os argelinos abrindo mercado para a carne e outros produtos. "Vamos trazer o presidente da Petrobrás para cá", disse o ministro.

Em 2004 e 2005, o Brasil exportou U$ 505 milhões para a Nigéria, mas importou US$ 3,5 bilhões, basicamente com petróleo. Pelas estimativas da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos ( Apex), a Nigéria tem potencial de negócios em oito setores. A Nigéria importa U$ 12,5 do mundo e o Brasil participa de 1% deste valor.