Uma auditoria realizada pela Brasil Telecom (BrT) constatou que o banqueiro Daniel Dantas usou dinheiro da empresa em larga escala e de forma continuada, entre 2001 e 2005, quando esteve no comando da companhia, para pagar, indevidamente, as despesas pessoais, do Banco Opportunity, de propriedade dele, e de executivos a serviço dele. O prejuízo até agora apurado chega a R$ 361 milhões, segundo informou hoje a nova diretoria da BrT, hoje controlada pelo Citigroup e por fundos de pensão.
Só com o leasing de três jatos (um King Air e dois Citation), que serviam quase, exclusivamente, a Dantas, a executivos do Opportunity e aliados políticos dele, foram gastos R$ 66 milhões. "A BrT pagava 70% da conta e desconhecia se algum executivo da operadora usava os aviões", disse o advogado da BrT Francisco Costa e Silva.
O banqueiro, conforme o exame pericial, usava o poder para canalizar recursos da BrT ao Opportunity, sem o conhecimento e a aprovação dos demais acionistas da empresa. Um exemplo disso foi o empréstimo de US$ 43 milhões da BrT para que o banco comprasse ações da Telemig e da Amazônia Celular. "Todo o risco da operação ficou com a BrT e o lucro, com o Opportunity", informou o vice-presidente da operadora, Charles Putz. Putz alega que o prejuízo com esse negócio chegou a US$ 108 milhões.
Entre outras despesas com dinheiro da operadora, Dantas pagou cerca de US$ 1 milhões à assessora norte-americana Roberta Fisher por dois anos de serviço. Também remunerou 11 empregados do Opportunity com R$ 3,5 milhões por apenas dois meses de supostos serviços. Um deles, Danielle Silbergleid, levou mais da metade desse valor, algo como R$ 1,8 milhão, por uma jornada de quatro horas de trabalho ao dia.
Embora estivesse, oficialmente, a serviço da BrT, Danielle assinava as correspondências e contatos eletrônicos como funcionária do Opportunity. Para se ter uma idéia do nível de confiança e conhecimento dos negócios do banqueiro, ela é a mesma que ficou ao lado de Dantas no depoimento que ele prestou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do "Mensalão", há dois meses. A auditoria constatou também que a operadora pagou pela decoração e o aluguel do escritório da instituição financeira em São Paulo.
A empresa acionou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que sejam apontados e punidos, administrativamente, os responsáveis pelas fraudes. Decidiu também mover ação civil na Justiça para ressarcimento dos danos e, caso se confirme a existência de crime, enviará os dados ao Ministério Público (MP) com pedido de ação penal. As supostas irregularidades encontradas na auditoria vão desde gestão fraudulenta a desvio de dinheiro para atividades indevidas.
O Opportunity negou as acusações e informou, por meio da assessoria, que tomará as medidas judiciais cabíveis, até mesmo criminais, contra o que qualifica de "afirmações mentirosas e sem fundamento do sr. Charles Putz". Informou ainda que não é coincidência que essas acusações "fictícias" venham à tona às vésperas de decisões judiciais que, em última análise, envolvem o controle da Brasil Telecom.
O vice-presidente da BrT disse que R$ 361 milhões é um valor expressivo, mas que o prejuízo não chega a comprometer a situação financeira da empresa, considerada por ele "uma companhia sólida". A BrT é uma das três maiores companhias de telefonia fixa do País e opera em nove Estados das Regiões Sul, Centro-Oeste e parte da Norte, além do Distrito Federal.
A diretoria não incluiu entre os prejuízos de Dantas as despesas, de mais de R$ 10 milhões, com espionagem contratada à empresa americana Kroll Associates para investigar políticos, autoridades do governo e desafetos do empresário. Entre os investigados, estão a Telecom Italia, o empresário Roberto Demarco e o chefe do Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE) da Presidência da República, Luiz Gushiken.