Memória curta, descompromisso ético e, não raro, grossa falta de compostura diante de situações que exigem elevado espírito público, probidade e resoluções firmes, são alguns dos males que afligem o País, sobretudo, nas esferas governamentais. Está de tal forma arraigada no tecido social a desconfiança na gestão pública, que só os crédulos de carteirinha se dão ao desplante de acreditar na recorrente cantilena dos governos, quanto ao rigor e celeridade das soluções apregoadas.

O tema é cansativo e desgastante, embora tenha sua atualidade mantida em ritmo acelerado pela farândola de atos originários da administração pública, leia-se, as instituições federais envolvidas na rumorosa crise da aviação civil, que depois de dez longos meses demarcados por dois acidentes de graves proporções, com cerca de 350 mortes, não foram capazes de apresentar à população sequer uma descrição abalizada da problemática.

A única providência mensurável do governo Lula foi a exoneração do ministro Waldir Pires, da Defesa, e a entrega da pasta ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim. Tanto quanto se pode especular, nenhum deles possui quaisquer vínculos com o conteúdo específico da matéria a ser administrada.

Literalmente queimado pelo fraquíssimo desempenho na crise do sistema de controle do tráfego aéreo e suas conseqüências no caos aeroportuário, Waldir cedeu a cadeira para Jobim, que até a aposentadoria esteve à frente do STF, chegando a presidir o grupo de sumidades da corte destinada a dar a última palavra sobre arrastadas e insanáveis demandas de natureza jurídica.

Não consta, porém, da elitista formação do atual ministro da Defesa nenhuma evidência de familiaridade com assuntos ligados ao universo da defesa, ou na melhor das hipóteses, com as questões aeronáuticas que puseram a nocaute um governo com visível dificuldade de articulação e escassas condições de oferecer respostas substantivas.

O primeiro nó a ser desatado é a configuração jurídica da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), cujos diretores foram blindados com mandatos que vão até 2011 e não podem ser demitidos nem pelo presidente da República.

A saia justa do Planalto diante de tamanho aleijão fez brotar a alternativa casuísta da demissão espontânea dos diretores. É o assunto da semana.