Há cerca de três meses, o apresentador Andrew Marr, da BBC de Londres, conduziu um amplo debate com jornalistas e lideranças políticas de várias nações do planeta sobre os resultados de uma pesquisa feita pela emissora que lança por terra os argumentos do presidente George W. Bush em defesa da sua política externa conservadora e belicista. Intitulada “O que o mundo pensa dos EUA”, a pesquisa ouviu a opinião de moradores de dez países, inclusive do Brasil, a respeito do tratamento que os Estados Unidos tem dispensado a conflitos políticos e ideológicos em várias localidades do mundo.
A sondagem revelou que a imagem geral das autoridades diplomáticas norte-americanas é, em geral, arrogante e perigosa. Nada menos de 2/3 dos entrevistados disseram que estão insatisfeitos com a orientação política adotada por George Bush. Não por outro motivo, apenas 1/3 das pessoas ouvidas aprovaram a ação militar da Casa Branca no Iraque, em março, que levou à deposição do ex-presidente Saddam Hussein.
Mas isto não é tudo. 75% dos entrevistados consideram que a maneira como os EUA se posicionam em relação aos conflitos políticos no Oriente Médio, assim como em outras regiões do mundo, não contribui para deixar o planeta mais seguro. Como resultado desta avaliação, 67% das pessoas ouvidas pela BBC de Londres disseram que a política externa da Casa Branca não deve ser adotada por outras nações do mundo.
A referência a estes dados possui natural relevância, mas ganha uma dimensão ainda maior quando lembramos que estamos iniciando a semana que marca os dois anos do atentado de 11 de setembro contra o World Trade Center, em Nova York, no qual morreram mais de cinco mil pessoas. Números como esses deveriam servir de exemplo para mostrar a necessidade, tanto quanto a urgência, das autoridades norte-americanas mudarem o tratamento que dispensam a um tema tão delicado com as relações diplomáticas entre as nações do planeta.
A postura armamentista adotada pelo governo dos EUA, que leva a Casa Branca a definir um orçamento anual de aproximadamente US$ 400 bilhões para as Forças Armadas, não poderia levar a outra coisa a não ser a desastres do porte do ocorrido há exatamente dois anos no coração financeiro da América. A sociedade mundial sabe disso. Tanto que, na mesma pesquisa da BBC de Londres, 62% dos entrevistados disseram que o atentado de 11 de setembro foi conseqüência direta do que os norte-americanos vem fazendo em relação à sua política externa.
Exatamente devido aos efeitos trágicos que resultam de ações como essas, seria conveniente que as organizações diplomáticas do mundo, sobretudo a ONU, cobrassem uma mudança profunda do tratamento que o governo do EUA dedica aos conflitos políticos no planeta. Não se pode apontar apenas o terrorismo como responsável pelo acirramento da violência nas regiões geopoliticamente mais tensas do planeta, até por conta de outros fatores locais que interferem neste processo. Os EUA também tem grande responsabilidade pelo agravamento deste quadro, pela sua importância político-econômica para a manutenção da paz mundial, ou pela falta dela. E o melhor caminho para a paz continua sendo ela própria, não a violência.
Aurélio Munhoz (politica@para-online.com.br) é editor-adjunto de Política de O Estado do Paraná e mestrando em Sociologia Política pela UFPR.