Pecado nenhum comete o PT, partido esquerdista que se diz socialista e está no poder, quando é revelado que as doações que recebeu dos bancos cresceu nada menos de 1.000% em 2002. Pecado talvez cometessem alguns de seus próceres quando, lutando pela conquista do poder, espinafravam o sistema financeiro do qual não tardaram em se servir às conchadas. ?Os bancos mantêm relações com o poder, e não com a ideologia?, afirma Bruno Speck, cientista político da Unicamp, buscando assim explicar o fenômeno.
Sob a política econômica do governo Lula, tocada pelo ministro da Fazenda, Antônio Palocci, os bancos bateram recordes de lucro no Brasil. E tornaram-se os principais doadores de dinheiro ao PT.
Entre 2002 e 2004, suas doações aos caixas do Partido dos Trabalhadores nacional e do Estado de São Paulo cresceram nada menos de 1.000%. Saltaram de R$ 520 mil, uma quantia relativamente modesta, para consideráveis R$ 5,7 milhões. No ano de 2004, em que houve campanha eleitoral, o PT também recebeu a maior quantia do sistema financeiro. Foram R$ 7,9 milhões, divididos entre candidatos de todo o País e os maiores diretórios.
Em alguns casos, como o do PT de São Paulo, que perdeu as eleições para governador, o diretório estadual recebeu mais dos bancos que do próprio Fundo Partidário, principal fonte de recursos dos partidos. E há ainda o caixa 2, confessamente usado, embora ilegal. O PT paulista, naquele ano, abocanhou R$ 4,3 milhões, enquanto o fundo lhe destinou apenas 1,4 milhão. As contribuições de parlamentares e filiados, que para dar legitimidade às agremiações políticas deveriam ser substanciais, chegaram a minguados R$ 550 mil.
Indescartável a desconfiança dessas relações tão amigáveis entre governo, partido e bancos, quando estes conseguem bater recordes de lucros.
A despeito da inevitável desconfiança, há de se considerar que bancos e grandes empresas não apóiam um só partido e um só candidato, mas dividem seus recursos destinados às campanhas eleitorais aquinhoando a quase todos. Nem aqui falha a regra da igualdade ditada por Rui Barbosa. Geralmente aquinhoam desigualmente os desiguais, na medida em que se desigualam. As agremiações e candidatos que têm programas mais ao gosto dos doadores geralmente recebem mais.
E, mesmo que não fosse a intenção, o atual governo, com a política de Palocci, foi favorável ao sistema bancário. Manteve e ainda mantém os juros básicos altos e a oferta de títulos públicos com remunerações que atraem não só investidores nacionais como internacionais. A colocação em grande escala de títulos públicos faz com que a oferta de dinheiro seja bem menor que a procura e, de acordo com a conhecida lei econômica (da oferta e da procura), natural que os juros praticados no dia-a-dia sejam elevados e altos os lucros.
Tudo explicável, quase compreensível, embora politicamente um paradoxo difícil de engolir. E nos leva a insistir que é hora de reformular o sistema de financiamento das campanhas, examinando inclusive a sua sustentação com recursos públicos. Uma idéia antipática, mas menos suspeita do que se descobrir que os bancos e outras empresas estão sustentando com dinheiro e altos lucros o nosso sistema político. E isso inclusive quando o governo é – ou se diz – de esquerda e socialista.


