O governo, com a melhor das intenções e desastrados resultados, decidiu beneficiar as classes de menor renda generalizando o crédito consignado. A decisão parecia tão simples e dócil que não seria insulto chamá-la de ?idéia de jerico?. As pessoas de menor renda são as que mais necessitam antecipar suas compras e pagamentos e, por terem menor poder aquisitivo, são levadas a pedir empréstimos. As dificuldades de cadastro se tornam um óbice, que o crédito consignado busca contornar. O banco tem maior garantia, pois o pagamento passa a ser descontado na folha de pagamento de salários.
Ocorre que, por inexperiência e pelo acúmulo de necessidades, o mutuário muitas vezes perde o controle dos empréstimos que toma e acaba gastando mais do que pode. O que resta no pagamento de seu salário muitas vezes se torna insuficiente para a sobrevivência. Então surgem as oportunidades de substituir um empréstimo por outro até enforcar o pobre trabalhador. Há vantagens para os assalariados nas providências tomadas pelo governo. Mas vantagem maior é, sem dúvida, para as instituições financeiras. Tanto isso é realidade que o que se viu foi uma multiplicação de bancos anunciando créditos consignados. Todo negócio bom tem de ser bom para as duas partes. Mas pela festa que passaram a fazer as financeiras, a impressão que se tem foi de que essa modalidade de empréstimo ajudou mais os mutuantes que os mutuários.
Agora, o governo anuncia uma série de medidas para baratear o crédito: redução dos custos que sobre ele incidem; estímulo às instituições financeiras para multiplicar créditos para os pequenos clientes e até a transferência para o empregado do direito de escolher em que banco deseja seja pago o seu salário. Até aqui, as empresas escolhem a instituição onde serão pagas as remunerações de seus subordinados. E aproveitam o poder de barganha que passam a ter com os banqueiros, sem nenhum benefício exigir para os empregados. Conquistam para si até créditos privilegiados e subtraem do trabalhador, verdadeiro dono do dinheiro, até mesmo o direito de eleger o banco que lhe ofereça menores taxas e maiores vantagens. O governo promete que isso vai mudar a partir de janeiro do ano que vem. É uma boa notícia.
Outra medida em estudos e que esbarra em óbices que o governo reconhece, tenta superar, mas encontra dificuldades, visa multiplicar os empréstimos da casa própria, aumentando sua oferta. O problema está nas garantias, pois todas as que o trabalhador ou em seu nome podem ser oferecidas são esgotáveis, a começar pelo crédito consignado que se torna inviável com a demissão e o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço, que é bom enquanto dura. Mas que um dia acaba.