Bastaram cinco horas de caos nos aeroportos para que o governo se rendesse à força dos controladores e negociasse um acordo para pôr fim à greve. "Aprendemos que podemos parar o país e exigimos ser ouvidos. Chega de arbitrariedade e desrespeito", disse um dos sargentos que liderou o movimento. O governo iniciou as negociações de forma dura, anunciando a possível prisão de 18 controladores e punições para os líderes da rebelião. A resposta foi o maior episódio de motim no setor, com quebra aberta de hierarquia.

O rebelião dos controladores começou na troca de turno, no final da manhã e se estendeu até a madrugada. O momento de maior tensão foi quando o comandante do Cindacta-1, brigadeiro Carlos Aquino, convocou os quatro controladores mais antigos para dar a eles voz de prisão, no início da tarde. Nesse instante, um segundo sargento levantou a voz e deu início ao motim, anunciando que se ele fosse prender alguém, teria que prender a todos.

Era o momento de troca de turno e o pessoal da manhã declarou-se aquartelado e em greve de fome. O pessoal da tarde aderiu ao movimento, que aos poucos espalhou-se por todo o País, afetando mais de 40 aeroportos. Pelo menos 120 dos 200 controladores em ação em Brasília cruzaram os braços. O que ocorreu a seguir foi o retrato do caos nos aeroportos. Estabeleceu-se que não seriam mais autorizadas decolagens e que só os aviões em vôo seriam monitorados até a aterrissagem. No início da noite, os aeroportos pararam.

Enquanto a negociação seguia, controladores de folga e os da reserva técnica foram colocados de prontidão, tanto pelo governo como pelo comando de greve, a fim de restabelecer a normalidade assim que se chegasse ao acordo.

Diante das notícias de prisões e retaliações aos grevistas, mulheres e familiares dos controladores amotinados se aglomeraram em frente ao portão do Cindacta, rezaram de mãos dadas e fizeram manifestações de apoio ao movimento. "Nossos maridos vivem em stress constante, em permanente clima de terror usando equipamentos sucateados e em total desrespeito. Eles perderam a esperança e vão até o fim até serem reconhecidos. Estamos aqui para apóia-los", disse uma líder da manifestação, Lúcia da Silva.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Controladores de Tráfego Aéreo, Wellington Rodrigues, para que militares se rebelassem dessa forma, a ponto de quebrar a o princípio "sagrado" da hierarquia, algo de muito ruim estava acontecendo. "Foi um ato extremo, de desespero, ante a total desconfiança na autoridade", resumiu Wellington Rodrigues. Ele disse que o ministro da Defesa, Waldir Pires, é bem intencionado, mas foi solenemente ignorado e desprestigiado pelo governo.

Após a assinatura da minuta do acordo, pouco depois da meia noite de sexta-feira, os controladores se comprometeram a restabelecer a normalidade nos aeroportos a partir da manhã de ontem. "Depois de um dia tenso, com ameaças e arbitrariedades, o governo acabou recuando", disse o advogado Normando Augusto Cavalcante Júnior, na saída da reunião de emergência entre representantes da categoria e o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.